Sucesso no Festival de Curitiba, Malu Galli fala sobre temas difíceis no teatro e no cinema: “A gente embrulha como um presente”

Tiago Martelli e Malu Galli estão em Mulher em Fuga © João Pacca Divulgação Blog do Arcanjo 2026

Reportagem de FLORA CARNEIRO

Após o sucesso em “Vale Tudo” como a tia Celina, Malu Galli volta aos palcos com “Mulher em Fuga”, espetáculo baseado na obra do autor francês Édouard Louis. Ao lado de Tiago Martelli, a atriz dá vida a Monique, mãe do escritor, que rompe décadas de violência e opressão patriarcal. Com sucesso em São Paulo e agora no Rio, a peça teve sessões esgotadas em poucas horas no Festival de Curitiba e com direito a sessão extra devido ao sucesso. Nesta entrevista, Malu reflete sobre a transição da TV para o teatro, a importância do tema, sua relação com a internet e com o festival.

Você saiu agora da tia Celina, de “Vale Tudo”, para entrar na Monique, que são personagens muito diferentes e complexas, mas em lugares opostos. Como foi essa transição e como surgiu o convite para a peça?

Foi bem no finalzinho das gravações e o Tiago Martelli me procurou. Achei maravilhoso poder emendar; é uma oportunidade de me desafiar. Eu estava muito entusiasmada com o tema da peça e com a adaptação do Édouard Louis. Como ator, quando mergulhamos no universo dos personagens, nos emprestamos completamente e os anteriores desaparecem imediatamente. Entrar numa sala de ensaio já é um ambiente muito diferente da televisão. Agora, as duas são mulheres diferentes, mas se encontram em um ponto: a Celina também não era uma mulher exatamente livre. Ela vivia uma relação de dominação com a irmã, inclusive de assédio patrimonial. Não tinha autonomia financeira; havia uma relação de abuso e opressão.

A peça aborda temas profundos sobre misoginia e patriarcado. Como é trazer esse texto agora, no momento político, em Março de 2026, com o Brasil batendo recordes de feminicídio?

A gente começou a ensaiar essa peça em novembro, só que de lá para cá, a situação veio ficando cada vez mais aguda com a questão do discurso de ódio nas redes, do discurso “Red Pill” e esses estupros coletivos proliferando pelo território brasileiro. Isso tudo está ficando desesperador e assustador. A peça vai ganhando um caráter cada vez mais relevante e vai se afirmando a urgência de falar sobre isso. Eu amo a peça, amo essa história, acho que é uma história linda, porque é dura, violenta e espelha a realidade, mas a Monique tem um final feliz: aos 55 anos ela se reencontra com ela mesma e finalmente se liberta. É muito bom poder levar para a cena, no meio desse contexto aterrador e devastador que estamos vivendo para as mulheres e crianças, uma história onde a personagem consegue se libertar, sair viva e inteira. Acho importante levar um discurso de esperança no meio dessa devastação toda. A arte tem que fazer refletir e pensar o mundo, mas também tem que poder abrir uma janela e lançar alguma luz sobre a situação.

A peça foi um sucesso em SP e no Rio e agora esgotou em horas no “Festival de Curitiba”. Como está sendo trazer o espetáculo com essa recepção?

Estamos super animados. Acho que vai ser lindo fazer essa peça num festival tão importante e com uma curadoria maravilhosa. É muito bom estar nessa seleção, junto de peças que a gente acha incríveis. O público de festival é muito legal; ama teatro, participa e as peças geram discussão. Levar uma obra que por si só já gera reflexão para um festival potencializa essa discussão. Nunca me apresentei no “Guarinha” e vai ser muito gostoso fazer lá. Foi uma surpresa a peça esgotar tão rápido em Curitiba; em São Paulo foi um grande sucesso, mas não sabíamos como seria fora do SESC [teatro que a peça estreou], que tem um público cativo e ingressos populares.

Queria saber se você tem alguma relação com a cidade. Você contou que já veio algumas vezes; como foram essas experiências?

Fui para o festival com “Memorial do Convento” e “Meu Destino é Pecar” nos anos 2000. Depois voltei com “Nômades”, com a Andréa Beltrão e a Mariana Lima, no “Guairão”, que foi inesquecível. Eu volta e meia vou a Curitiba, sempre no festival. Acho que nunca fui à cidade sem ser para o evento; minha relação com o lugar passa pelo festival. Para mim, Curitiba tem a ver com teatro.

Na peça, a Monique demonstra um estranhamento com a tecnologia. Entrando nesse assunto de internet, você não é uma pessoa muito ativa nas redes sociais, mas tem um fandom muito grande. Qual é a sua relação com esse público e como você lida com isso?

Fico muito feliz. São meninas muito legais; já tivemos vários encontros. Quando faço teatro, a gente se fala depois da peça. Elas me seguem não só pelo trabalho de atriz, mas também por como me posiciono; se inspiram com as minhas posturas. A troca é muito legal, são generosas, divulgam meus trabalhos e me ajudam nas estreias. Posto mais para divulgar o trabalho; não posto muito a vida pessoal, nem tenho paciência para fazer isso com constância. Eu não tenho uma equipe cuidando disso, então vou pelo caminho do meio com a internet. Alimento aquilo um pouco para “manter vivo”, mas num tamanho que é honesto para mim, que não me violenta e não me força a fazer algo que não tem a ver comigo. Vou ali do meu tamanho.

Você vai lançar o filme “Querido Mundo”, do Miguel Falabella, pelo qual ganhou o Kikito. É também sobre uma mulher cansada com um marido bruto. Como você vê a relação entre essas personagens recentes e o que pode falar sobre esse filme?

Acho natural que pipoquem esses roteiros, porque é uma realidade brasileira e mundial. É importante que essas histórias sejam contadas e sentidas; é o papel da arte. No filme, a roupagem é diferente; é sobre o amor, muito romântico. A personagem começa saindo de um casamento violento, mas encontra esperança. De alguma forma, isso vai ao encontro de “Mulher em Fuga”, porque também termina de forma esperançosa e leve; acho isso importante nesse momento. O mundo está difícil com essas guerras e a loucura da internet; está todo mundo cansado e massacrado. É muito bom levar histórias que façam as pessoas passarem por reflexões difíceis, mas que saiam leves no final. A gente embrulha isso como um presente, porque está bem difícil.

*Estudante de Jornalismo da Universidade Positivo sob supervisão de Miguel Arcanjo em parceria com a professora Katia Brembatti.

*O jornalista Miguel Arcanjo Prado viaja a convite do Festival de Curitiba.

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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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Editado por Miguel Arcanjo Prado

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