★★★★ Crítica: Afroargentinas traz resistência de pessoas negras que recusam apagamento histórico

Cena de Afroargentinas – Uma Peça de Teatro Documental © Carla Guzman Divulgação para Miguel Arcanjo 2026

Por RUNAN BRAZ
Especial para Miguel Arcanjo
De São Paulo

★★★★
AFROARGENTINAS
Avaliação: Muito Bom
Crítica por Runan Braz

Ao ler a sinopse, logo surge uma pergunta provocadora: existem pessoas negras na Argentina? Esse questionamento movimenta “Afroargentinas — Uma peça de modelo documental”, espetáculo que fez temporada de sucesso no Sesc Belenzinho até 1º de março e que merece novas temporadas. Com autoria de Florencia Gomes, Jesica Salinas Lamadrid e Ivanna Smolar, a peça desconstrói o mito de uma Argentina exclusivamente branca, trazendo aos palcos brasileiros uma temática inédita e necessária: a história de luta e resistência da negritude portenha.

O enredo, que conta com a coordenação de produção da Sankofa Solar Produções, por Will Lima, evita coerentemente os clichês comuns sobre o racismo. Em vez disso, a obra com direção de Lina Lassoinova e assistência de direção de Naiara Roque Ferreira inova ao construir diálogos essenciais para a compreensão da identidade negra em Buenos Aires.

O espetáculo não apenas informa, mas também instiga para uma reflexão valiosa sobre a diáspora africana na América do Sul — um capítulo histórico ainda pouco explorado pelos currículos escolares no Brasil.

A originalidade da obra carrega um aspecto intimista de seus textos, fruto de uma consistente pesquisa documental da Articulação Artística de Arquivos de Okan. O uso de fotografias, projeções e áudios resgata códigos culturais e costumes ancestrais, como o Tango, o Candombe e a Cumbia.

Esses elementos não apenas reforçam o sentimento de pertencimento das protagonistas, como também tornam a narrativa culturalmente engajadora, convidando o espectador a traçar paralelos inevitáveis entre as referências do Brasil e da Argentina, aproximando os povos hermanos.

No palco, Florencia Gomes e Jesica Salinas Lamadrid entregam atuações vigorosas. Suas falas exaltam a trajetória de mulheres negras que sobrevivem em uma sociedade machista, racista e excludente.

A dinâmica do espetáculo é habilmente costurada por registros históricos e memórias familiares. Em movimentos de extrema sensibilidade, elas evocam a ancestralidade de Cabo Verde por meio de uma musicalidade e expressão corporal que hipnotizam a plateia.

O resultado é uma experiência sensorial completa: o público é imerso em projeções de manifestações afro-argentinas enquanto presencia a força das danças típicas, como o candombe.

Afroargentinas – Uma Peça de Teatro Documental é uma analogia poética de resgate e memória, com um toque celebrativo de uma cultura que se recusa a ser apagada.

★★★★
AFROARGENTINAS
Avaliação: Muito Bom
Crítica por Runan Braz

Ficha Técnica:

Autoria: Florencia Gomes, Jesica Salinas Lamadrid, Ivanna Smolar
Atrizes: Florencia Gomes e Jesica Salinas Lamadrid
Direção: Lina Lasso
Assistência de Direção: Naiara Roque Ferreira
Formato teatro documental: Ivanna Smolar
Intérprete de Libras: Nzambi (Libras Diferenciada)
Operação sonoplastia: Jonas Coutinho
Operação Iluminação: Tati Santos
Operação audiovisual: Lina Lasso e Naiara Roque Ferreira
Articulação Artística (Brasil): Arquivos de Okan
Produção Executiva (Brasil): Will Lima (Sankofa Solar Produções)
Assistência de Produção (Brasil): Carla Stela

plaza de mayo city square in buenos aires argentina
Imagem do centro de Buenos Aires, Plaza de Mayo e Cabildo © Sebastián Godoy on Pexels.com para Miguel Arcanjo 2026
O jornalista Runan Braz © Rafa Marques para Miguel Arcanjo 2023

*RUNAN BRAZ é jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e escreve mensalmente, como colunista convidado, no Blog do Arcanjo, sobre suas descobertas culturais e gastronômicas pela cidade de São Paulo, onde nasceu e vive. Siga @runan.braz

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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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Editado por Miguel Arcanjo Prado

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