Saulo Schmaedecke: O Céu da Língua de Gregório Duvivier nos lembra que analógico é gostoso demais

Por SAULO SCHMAEDECKE
Especial para o Blog do Arcanjo
De Florianópolis
Se em 2026 você planeja resetar seu sistema operacional ou só dar um grau na neuroplasticidade, recomendo procurar a programação do teatro na sua cidade e ver se O Céu da Língua está nos planos do ano.
Escrita por Gregório Duvivier e por Luciana Paes em 2024, a peça estreou durante as comemorações dos 500 anos de Camões em Portugal. O texto é uma delícia, a “esquina do humor com a poesia”. Você viaja nas projeções da Theodora Duvivier e na música de Pedro Aune. O espaço do Teatro Ademir Rosa, em Florianópolis, foi lotado em todas as sessões no último fim de semana. A plateia tava elétrica e de vez em quando rolava um silêncio do tipo “a gente tá pensando a mesma coisa?”. Que sentimento gostoso. Talvez a gente não esteja tão apático e podre. Talvez só falte uma sopa de letrinhas melhor na dieta.
Entrei na peça com o cérebro meio atrofiado de tanto tempo de tela (e um consumo escandaloso de energético), mas saí com a massa cinzenta até coloridinha. Parece que mastiguei um dicionário. Papá. Mamá. Mesmo assim, fiquei sem palavras. Teatro tem essa coisa meio medicinal, né? Gostoso demais ser analógico. É muito achatante viver vidrado em tela. Quando perguntei ao Gregório qual é hoje o maior inimigo da leitura ele foi direto: a tela. A gente scrolla tragédia, guerra, skincare e crise existencial antes de dormir… e depois reclama de insônia.
A solução que ele propõe é necessária: “Celular longe da cama, despertador analógico e um livrinho antes de dormir.” Inclusive, ajuda a dormir. E ele ainda acrescenta que celular na mesa é uma coisa aflitiva. “Além de tudo, é sujo. Você sabe que é mais sujo que tampa de privada, né? Quando um pega, todo mundo pega.” O algoritmo janta com a gente. Quem convidou esse embuste?
E como será que a literatura pode disputar a atenção com o algoritmo? Gregório sugere criar espaços livres de algoritmo. Citou uma placa da Livraria Da Vinci, no Rio, que diz “Espaço Livre de Algoritmo”. Sim. Mais lugares habitados assim. Ter mais encontros analógicos na lista de planos do ano. Ler mais livros. Escrever mais. Viajar mais. Aprender um novo idioma. Quebrar um celular. (ninguém disse isso) (mas todo mundo pensa)
Perguntei também qual parte da reforma ortográfica mais o afetou emocionalmente. “A morte do trema”, como quem fala da morte de um parente querido. Sofre também com o sumiço dos hífens: “co-piloto”, “co-comandante”… porque sem esse tracinho tudo vira uma confusão meio escatológica. “Cocô mandante”. Risas. E, afinal, pão-de-ló tem hífen? Pé-de-meia tem? Ninguém sabe. Mystério. Assuntos apaixonantes. Insônia nacional garantida.
Sobre usar demais a palavra “literalmente”, Gregório disse que gosta justamente porque usamos “literalmente” de forma figurada. “A literalidade virou metáfora. Nada está imune à metaforização. Nem o literalmente.”
Pra fechar, quando perguntei qual poeta despertou a paixão pela literatura… enquanto ~tropeçava nos astros desastrado, mandou: “Sofia de Mello Breyner“, mas aí ele abriu uma constelação e veio Fabrício Corsaletti, Alice Santana, Angélica Freitas, Ana Martins Marques, Chacal, Ricardo Aleixo, Mariana Salomão Carrara, Giovanni Martins, José Falero. “Leiam os novos”, ele insiste.
Saí de um abysmo e quero voltar. As sessões estão lotadas por onde passam e agora a tour segue pela Europa, depois Rio e São Paulo. Dizem que O Céu da Língua volta à ilha em breve. Maio? Estarei de plantão.
Cheio de saudade hoje fico por aqui. Sem encher mais lingüiça!
Nota do Editor: O Céu da Língua faz turnê na Europa de 11 a 29 de março. Depois, volta a São Paulo no Teatro Bradesco de 15 a 19 de abril, seguindo para o Rio de Janeiro, onde faz temporada no Teatro Casa Grande a partir de 30 de abril.
Siga @ceudalingua para datas e ingressos da turnê!

*SAULO SCHMAEDECKE Jornalista, fotógrafo, produtor e barbeiro. Às vezes escreve coisas legais. Às vezes faz umas fotos. Às vezes corta cabelo. Às vezes faz tudo ao mesmo tempo.
Siga @sa.cke
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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