Felipe Barros celebra sucesso do solo Aqui, Agora, Todo Mundo: ‘Carta sobre vida e coragem para meu filho’

O ator Felipe Barros celebra sucesso de seu solo Aqui, Agora, Todo Mundo no Teatro Sérgio Cardoso © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2026

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

Felipe Barros estreou seu primeiro solo, Aqui, Agora, Todo Mundo, sob fortes aplausos no palco da Sala Paschoal Carlos Magno, no Teatro Sérgio Cardoso, com a urgência de quem transforma silêncio em manifesto. O espetáculo vencedor do Coelho de Prata no 33º Festival Mix Brasil, o maior e mais tradicional evento de diversidade da América Latina, transborda a literatura de Alexandre Mortagua para encontrar a memória do ator. A trama mergulha na saúde mental e na sobrevivência de corpos dissidentes, embalada pela sonoridade moderna da cantora Jaloo e direção de Heitor Garcia, que construiu com o ator a dramaturgia inspirada no livro homônimo. Para Barros, o projeto marca um renascimento pessoal: ele se prepara para ser pai ao lado do marido, Rafael Ometto do Amaral. A peça cumpre temporada até 1º de março, com sessões aos sábados, domingos e segundas-feiras, às 19h, na Rua Rui Barbosa, 153, na Bela Vista. As apresentações de fevereiro contam com rodas de conversa. Nesta exclusiva Entrevista de Quinta ao jornalista Miguel Arcanjo Prado, Felipe Barros detalha aos leitores do Blog do Arcanjo o desafio ético de levar temas viscerais ao palco e a importância de nomear dores para seguir adiante. Leia com toda a calma do mundo.

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O ator Felipe Barros celebra sucesso de seu solo Aqui, Agora, Todo Mundo no Teatro Sérgio Cardoso © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2026

Miguel Arcanjo Prado – Como você chegou a esse texto do Alexandre Mortagua e decidiu transformar em peça?
Felipe Barros –
Após sair do Grupo Gattu em 2013, grande escola da minha vida artística, fiquei alguns anos fora do Teatro, trabalhando com projetos audiovisuais, com minha antiga produtora que abri com amigos, a Naveia Filmes. Conheci o Alexandre Mortagua nessa época, num curso de cinema que fizemos. Gravamos alguns curtas juntos, vivemos muitas histórias incríveis, festas, sonhos, e ele me chamou pra protagonizar o seu primeiro longa-metragem “Todos Nós 5 Milhões”, que está disponível no GloboPlay e conta uma história sobre abandono paterno no Brasil. Alexandre foi me assistir na peça “Esse Maldito Fecho-Éclair”, que foi indicada ao Prêmio Arcanjo de Melhor Comédia de 2024. Ele assistiu o espetáculo, me deu um exemplar de seu livro e falou da vontade de transforma-lo em espetáculo, filme, performances… tantas possibilidades que o livro tinha pra oferecer.

O ator Felipe Barros celebra sucesso de seu solo Aqui, Agora, Todo Mundo no Teatro Sérgio Cardoso © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2026

Miguel Arcanjo Prado – E como foi a leitura do livro?
Felipe Barros –
Fui ler o livro só no fim de 2024, quando estava naquela fase de pensar novos projetos pro ano seguinte, novas linguagens e afins, e a vontade de desenvolver meu primeiro monólogo estava coçando. Acho que o livro do Ale me encontrou na hora certa. O livro me atravessou num período em que eu estava muito atento à minha própria saúde mental, às contradições de existir, especialmente dentro de um corpo gay adulto, funcional por fora, mas muito frágil por dentro. Tinha algo ali que não era literário apenas, era visceral. Eu sentia que aquelas palavras carregavam um pedido de continuidade, quase um pedido de socorro transformado em linguagem. Em algum momento, eu entendi que aquele texto não queria ser adaptado, ele queria ser tensionado, atravessado pela minha história, por dados sobre saúde mental, pelo meu corpo, pelas minhas memórias e por tantas outras que escutamos por aí sobre a nossa comunidade.

Felipe Barros e Rafael Amaral celebram sucesso de Aqui, Agora, Todo Mundo no Teatro Sérgio Cardoso: peça nasce junto do filho dos dois, que serão pais em março © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2026

Miguel Arcanjo Prado – E como nasceu a peça?
Felipe Barros –
A peça nasce quando eu percebo que não estou falando sobre o livro do Alexandre Mortagua, mas a partir dele. É um diálogo entre tantas vivências, tempos, formas de sobreviver. Transformar isso em teatro foi uma maneira de não deixar essa conversa morrer dentro de mim e de convidar outras pessoas para esse encontro. Principalmente nesse momento lindo da minha vida. Esse espetáculo chega num momento em que eu também estou renascendo. A peça nasce e meu filho também. Eu e meu marido, o engenheiro Rafael Ometto, seremos pais agora no fim de março. Fruto de uma gestação por substituição, a famosa barriga de aluguel, fora do país. E isso muda tudo. Isso muda como eu olho para a vida, para o futuro, para o que eu escolho dizer em cena. Essa obra é, de algum jeito, uma carta para ele. Sobre vida e coragem. E talvez seja também uma carta para todos nós. Sobre permanecermos vivos e juntos.

O ator Felipe Barros celebra sucesso de seu solo Aqui, Agora, Todo Mundo no Teatro Sérgio Cardoso © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2026

A peça nasce e meu filho também. Eu e meu marido, o engenheiro Rafael Ometto, seremos pais agora no fim de março. Fruto de uma gestação por substituição, a famosa barriga de aluguel, fora do país. E isso muda tudo. Isso muda como eu olho para a vida, para o futuro, para o que eu escolho dizer em cena. Essa obra é, de algum jeito, uma carta para ele. Sobre vida e coragem.
Felipe Barros
ator

Miguel Arcanjo Prado – O que é mais desafiante em fazer o primeiro solo?
Felipe Barros – Fazer um solo é o sonho de qualquer ator. Ter um solo pra chamar de seu. Poder ser dono do seu projeto. Mas fui descobrindo no meio do caminho que é tão maior e complexo do que isso. Um grande desafio da minha vida. Um solo é um lugar de extrema exposição. Não existe rede, não existe distração, não existe divisão de responsabilidade. Tudo que acontece em cena passa diretamente pelo meu estado físico, emocional e mental naquele dia. O maior desafio é sustentar a presença, não a performance. Existe uma solidão muito grande no solo, mas ela é paradoxal, porque só faz sentido quando compartilhada. Eu precisei lidar com meus próprios limites: até onde eu posso ir sem me violentar? Até onde a entrega é arte e quando ela vira exaustão? Também existe um desafio ético: falar de temas tão delicados sem romantizar a dor, sem transformar sofrimento em espetáculo vazio. Cada sessão exige uma escuta muito ativa do público e de mim mesmo. Eu nunca termino uma apresentação igual à outra, porque eu nunca entro em cena igual à outra. O solo me ensinou que vulnerabilidade não é fraqueza. É técnica, é escolha, é responsabilidade.

O ator Felipe Barros celebra sucesso de seu solo Aqui, Agora, Todo Mundo no Teatro Sérgio Cardoso © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2026

O solo me ensinou que vulnerabilidade não é fraqueza. É técnica, é escolha, é responsabilidade.
Felipe Barros
ator

Heitor Garcia e Felipe Barros celebram sucessso de Aqui, Agora, Todo Mundo no Teatro Sérgio Cardoso © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2026

Miguel Arcanjo Prado – Por que escolheu o Heitor Garcia para dirigir?
Felipe Barros – Por que não escolheria? Heitor é o futuro do Teatro. É frescor, é inteligência, sagacidade. Ele é um homem de Teatro. Nasceu e vive pro teatro. Ele tem uma trajetória artística muito parecida com a minha. Dois homens, gays, que começaram muito cedo a estudar Teatro, e que decidiram seguir isso pra vida. Nossas histórias se cruzam em muitos lugares, apesar de só tê-lo conhecido quando ele co-dirigiu com Ricardo Grasson o espetáculo “Esse Maldito Fecho-Eclair”. Uma amizade, uma curiosidade, um afeto muito grandes se criou ali. Eu, Heitor e Mayara Dornas formamos um trio que tem muito a mostrar pro mundo. E mostraremos. Aguardem nossos próximos sonhos.

Miguel Arcanjo Prado – Fale uma característica especial do Heitor Garcia.
Felipe Barros –
O Heitor tem uma qualidade rara: ele escuta profundamente, mas não se acomoda nessa escuta. Ele provoca, desloca, tensiona. Eu precisava de um diretor que tivesse coragem de me colocar em risco artístico, mas também cuidado para não transformar esse risco em exploração emocional. Nosso trabalho foi muito baseado em confiança, fricção e um trabalho de mesa tão especial, que transformou tudo, nós e espetáculo em algo muito importante. Muitas vezes ele me fazia perguntas que eu não queria responder e vice e versa. E justamente aí estavam as cenas e momentos mais importantes que criamos juntos. Heitor não tentou organizar o caos do texto; ele me ajudou a habitar esse caos com consciência cênica. A direção nasce desse pacto: ir fundo, mas voltar inteiro. Sem anestesia, mas com rigor. Fora a genialidade da encenação, que é de total mérito dele. Não da pra explicar. Tem que assistir, sentir, viver.

Felipe Barros e Jaloo celebram sucessso de Aqui, Agora, Todo Mundo no Teatro Sérgio Cardoso © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2026

Miguel Arcanjo Prado – Como foi a parceria com a Jaloo pra trilha?
Felipe Barros –
Nossa querida e amada Jade. Jaloo é gente da gente. Multiartista. Aquelas que bota a mão na massa, se produz, tá no corre, veste a camisa. Profissional como poucas que esbarramos pelo meio. A parceria com a Jaloo foi quase espiritual. A música dela não entra como trilha, ela entra como estado. Existe uma sensibilidade muito específica na obra da Jaloo que conversa diretamente com esse corpo em trânsito. Euforia, melancolia, prazer e medo. Desde o início, sabíamos que não queríamos uma música que explicasse a cena. Queríamos uma música que criasse espaço interno, que abrisse fendas. A trilha funciona como uma camada emocional invisível, algo que o público sente antes de entender. Pra isso acontecer, tivemos um trabalho primoroso da DJ Aghata, que desenvolveu um design de som potente a partir de toda a Discografia da Jaloo. Um trabalho minucioso e fundamental pra construção da nossa dramaturgia. Trabalhamos a trilha para ser um ponto que não suavizasse a dor, mas que acolhesse. Ela não fecha sentidos, ela expande. A trilha virou uma espécie de respiração do espetáculo, algo que pulsa junto comigo e com o público. Viva Jaloo e toda essa sensibilidade, Encontro lindo. E pra sempre.

Alexandre Mortagua no 33º Festival Mix Brasil © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2025

Miguel Arcanjo Prado – Qual foi o retorno do Mortagua quando viu o livro dele virar peça?
Felipe Barros –
Ele entendeu, que aquilo não era uma transposição literal, mas uma obra autônoma, atravessada pela minha subjetividade, pelos exercícios de sala de ensaio, pelo atravessamento de tantas vivências. O livro do Ale é a nossa fagulha, ânsia, tesão de contar uma história que ultrapassa a autobiografia e se torna universal. Acho que o mais importante foi perceber que ele reconheceu a essência do livro ali, mesmo em outra forma. Quando um autor vê sua obra ganhar outro corpo, existe sempre um risco de perda, de distorção. Mas o que aconteceu foi o contrário: houve um reconhecimento de continuidade. Como se o livro tivesse encontrado um novo capítulo vivo. Esse encontro reafirmou algo muito forte pra mim: arte não é posse, é circulação. Quando uma obra toca outra pessoa profundamente, ela já deixou de ser só de quem escreveu.

Felipe Barros em Aqui, Agora, Todo Mundo no Teatro Sérgio Cardoso © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2026

Miguel Arcanjo Prado – Como foi vencer o Coelho de Prata no 33º Festival Mix Brasil com Aqui, Agora, Todo Mundo?
Felipe Barros –
Vencer o Festival Mix Brasil foi profundamente simbólico. Não apenas pelo prêmio, mas pelo lugar onde isso aconteceu. O Mix é um espaço de resistência, de escuta, de memória e de futuro. Um festival que entende que arte LGBT não é nicho. É linguagem, é política, é existência. Fomos tão felizes e acolhidos por todo mundo do Festival. Foi um sonho voltar com Teatro, após ter concorrido em anos anteriores com alguns curtas. Receber esse reconhecimento ali foi como ouvir: essa história importa. Siga em frente. Importa agora, importa do jeito que está sendo contada, importa com todas as suas contradições. Foi um impulso enorme para seguir, mas também uma responsabilidade: a de continuar honrando esse encontro com o público. Queremos contar essa história em muitos lugares, palcos, festivais. Essa história precisa ser vista.

Felipe Barros celebra sucessso de Aqui, Agora, Todo Mundo no Teatro Sérgio Cardoso © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2026

Miguel Arcanjo Prado – Qual o principal recado deste espetáculo?
Felipe Barros –
Como ator, com mais de 20 anos de profissão, o recado é: continue. Se produza. Acredite nas histórias que você quer contar. Ache sua turma. Não desista de mudar o mundo com sua arte. Agora como ator, escritor e dramaturgo desse espetáculo, eu desejo que nosso público consiga se enxergar em muitos aspectos da história. Que consigamos acolher nossa plateia, além de entreter. Mostrar que não precisamos dar conta sozinhos, que silêncio prolongado adoece. Que falar, nomear, compartilhar é um gesto profundamente de cuidado e amor para com a gente mesmo. O espetáculo não oferece respostas fáceis, mas oferece presença. Eu estou aqui com você. Eu preciso de você. Num mundo que exige produtividade, felicidade performática e força constante, essa peça defende o direito à pausa, à fragilidade e ao cuidado. Um abraço em tempos solitários e tenebrosos. O principal recado é simples e urgente: pedir ajuda não é falhar, é escolher viver. E enquanto a gente estiver aqui, agora, juntos, ainda existe possibilidade de transformação.

O ator Felipe Barros celebra sucesso de seu solo Aqui, Agora, Todo Mundo no Teatro Sérgio Cardoso © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2026

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Felipe Barros estreia Aqui, Agora, Todo Mundo no Teatro Sérgio Cardoso e Miguel Arcanjo mostra bastidores com exclusividade

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Miguel Arcanjo mostra quem já aplaudiu Felipe Barros no solo Aqui, Agora, Todo Mundo no Teatro Sérgio Cardoso

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Editado por Miguel Arcanjo Prado

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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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