Karine Teles, homenageada da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, transita entre muitos públicos

Por Francis Vogner dos Reis
Coordenador curatorial da
29ª Mostra de Cinema de Tiradentes
Karine Teles é um rosto e um nome conhecido em vários segmentos do público brasileiro. A motoqueira sudestina de Bacurau (2019) e a patroa de Que horas ela volta? (2015) são personagens tão conhecidos do espectador de cinema quanto Madeleine de Pantanal (2022) e Aldeíde de Vale tudo (2025) são conhecidas dos espectadores da televisão. Em princípio essas personagens nada teriam em comum.

No entanto, Karine Teles traz a elas uma espessura própria que ao mesmo tempo delineia a singularidade do seu trabalho de atriz e constroem a identificação dessas personagens com tipos proeminentes no imaginário do Brasil contemporâneo. Suas personagens podem ser ricas, mas são sobretudo emergentes, são trabalhadoras, mães e suburbanas em atrito com um mundo hostil a elas, podem ser também desventurosas personagens que desejam além daquilo que lhes é dado, o que podem se fazer no registro cômico ou melodramático (ou aderindo aos dois ao mesmo tempo). Entre a crônica social, o melodrama e o cômico, Karine Teles cria personagens que se identificam profundamente com a complexidade do Brasil atual e dá a isso graça, um rosto, uma voz, um tom.

Entre tantos trabalhos, o filme que a própria Karine Teles considera uma mudança de paradigmas na sua carreira, Riscado (2010), de Gustavo Pizzi, foi um dos selecionados para a Mostra Aurora da 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes (2011). Ela repetiria a parceria com Pizzi em Benzinho (2018) e na minissérie realizada para o Canal Brasil Os últimos dias de Gilda (2020).

Karine Teles é um dos exemplos mais flagrantes de um talento que se afirma com igual força na obra dos diretores brasileiros contemporâneos de cariz mais autoral como Gustavo Pizzi, Kléber Mendonça Filho, Gabriel Martins e Maurílio Martins e na produção audiovisual de repercussão popular e de grande alcance midiático, tendo nos remakes de Pantanal (2022) e Vale Tudo (2025) dois dos casos mais exemplares.

Nossa homenagem à Karine Teles vem do reconhecimento de sua força e talento, mas também porque identificamos nela um compromisso com a criação exigente e com o cinema brasileiro na sua expressão mais original e fértil. Se a Mostra de Cinema de Tiradentes a cada ano faz um esforço de homenagear os artistas do cinema brasileiro a partir imperativo de criação, busca reconhecer também a capacidade de seus trabalhos em alcançar ampla repercussão pública. Karine Teles faz essa síntese de modo deslumbrante.

*O jornalista e crítico Miguel Arcanjo viaja a convite da Universo Produção e se hospeda na pousada Segredo da Serra Guest House.
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Editado por Miguel Arcanjo Prado
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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