Vitória de Wagner Moura no Globo de Ouro coroa carreira de escolhas íntegras

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
A vitória de Wagner Moura na 83ª edição do Globo de Ouro como Melhor Ator – Drama por O Agente Secreto, filme de Kleber Mendonça Filho que ainda venceu como Melhor Filme em Língua Não Inglesa, não é um evento fortuito, mas o ápice de uma ascensão meticulosa, pautada por uma inteligência artística que transita entre a visceralidade regional e a sofisticação global. O baiano de Salvador percorreu uma trilha que começou nos palcos do Teatro Vila Velha em sua cidade natal e culminou neste domingo, 11 de janeiro, no panteão definitivo do cinema mundial, no Globo de Ouro.

Moura é, antes de tudo, um fruto da efervescência cultural da Bahia dos anos 1990. Ele frequentemente credita seu alicerce às políticas de fomento que permitiram que ele, Lázaro Ramos e Vladimir Brichta existissem como artistas. Em entrevistas recentes, ele reforça essa base: “Eu sou fruto das leis de incentivo à cultura. Eu existo porque na Bahia houve leis que possibilitaram que atores do teatro baiano pudessem existir”. Essa consciência de classe moldou sua postura em A Máquina (2000), peça que o catapultou ao Sudeste e revelou sua eletricidade cênica.


Na televisão, Moura hipnotizou o país com o vilão Olavo em Paraíso Tropical (2007), mas foi no cinema que ele estabeleceu sua estatura de gigante com o Capitão Nascimento em Tropa de Elite. O papel, que poderia ser apenas um arquétipo de ação, tornou-se um estudo complexo sobre a falência das instituições. Sobre a recepção do filme, o ator é enfático ao desconstruir visões simplistas: “O Tropa trabalhava isso: a polícia não tem que torturar ninguém, não tem que matar ninguém… Para mim, isso sempre foi uma denúncia”.

A virada para o mercado internacional revelou um estrategista. Ao contrário de muitos que se sujeitam a estereótipos, Moura impôs condições. Em sua passagem por Narcos (2015), onde interpretou Pablo Escobar, papel que lhe rendeu a primeira indicação ao Globo de Ouro, e em produções de Hollywood como Guerra Civil (2024), ele manteve seu sotaque e sua identidade. “Eu me sinto na obrigação de recusar qualquer personagem que eu veja que é um olhar estereotipado sobre o nosso povo. Quero interpretar personagens que atores americanos da minha idade estão fazendo”, declarou ao The New York Times às vésperas da premiação.



Sua faceta de “artivista” consolidou-se ao dirigir Marighella (2019), enfrentando censura e polarização e perseguição à cultura pelo então governo de extrema direita no Brasil. Para ele, a arte é indissociável da política: “Nós precisamos fazer esse enfrentamento contra o fascismo. A cultura te educa para ver o mundo de forma mais empática”. Essa coragem em “segurar o rojão”, como ele define, conferiu-lhe uma autoridade moral que transparece em cena.

Em O Agente Secreto, sob a batuta de Kleber Mendonça Filho, Moura atingiu a maturidade plena. Ao interpretar Marcelo, um homem asfixiado pela vigilância estatal de 1977, ele utilizou silêncios que transcendem barreiras linguísticas. O ator descreve a parceria com Kleber como um “mergulho no abismo”, destacando a liberdade criativa que o diretor pernambucano oferece.
Ao subir no palco do Globo de Ouro, Wagner Moura não apenas recebeu um troféu; ele validou uma trajetória de escolhas íntegras. Sua vitória prova que é possível conquistar o mundo sem abandonar as sandálias nordestinas ou a camisa entreaberta que remete ao pai. Hoje, ele não é apenas o maior ator brasileiro de sua geração; é uma força da natureza que forçou Hollywood a olhar para o Brasil com o respeito que a cultura brasileira merece.
Editado por Miguel Arcanjo Prado
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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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