Felicidade cria realismo fantástico em comédia musical de Caco Galhardo com Martha Nowill e canções de Zeca Baleiro

Martha Nowill em Felicidade no Teatro Sérgio Cardoso: a protagonista um dia acorda irremediavelmente feliz na comédia musical com texto de Caco Galhardo e canções de Zeca Baleiro © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2026

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

Há um frenesi típico das grandes estreias nos corredores do Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo. Afinal, 2026 acaba de começar e a peça não poderia ter nome mais apropriado aos anseios de todos nós no Réveillon: FELICIDADE. Em um tempo saturado de melancolia e mal-humor, a comédia musical original com texto de Caco Galhardo e músicas de Zeca Baleiro responde com um quê de realismo fantástico ao contar a história da escritora Flávia, vivida por Martha Nowill. Um dia, simplesmente, ela acorda feliz.

Martha Nowill em Felicidade no Teatro Sérgio Cardoso © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2026

Música de Tom Zé inspirou história

A história tem também um quê de quadrinhos, sabiamente preservado nos figurinos de Kleber Montanheiro, já que o dramaturgo também é cartunista com traços reconhecidos dos leitores da Folha de S. Paulo. Mas foi uma canção de Tom Zé que o inspirou. “Essa peça vem de uma música”, conta Caco Galhardo. “Menina, amanhã de manhã, quando a gente acordar, quero te dizer que a felicidade vai desabar sobre os homens”, cantarola para Miguel Arcanjo no camarim. Ao ouvir esses versos, visualizou o impacto desse “desabamento” não como uma tragédia, mas como uma ruptura existencial. “Onde isso poderia desembocar?”, questionou-se. A resposta foi a criação de Flávia, uma personagem que subverte a ordem natural do caos cotidiano da metróple ao tornar-se irremediavelmente alegre.

Martha Nowill em Felicidade no Teatro Sérgio Cardoso © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2026

Protagonista ‘cronicamente feliz’

Martha Nowill, que dá corpo e voz à protagonista, define Flávia como um espelho invertido de nós mesmos. “A Flávia era uma personagem um pouco ranzinza, meio mal-humorada, meio que nem todo mundo assim, a maioria”, revela Martha nos bastidores, enquanto se prepara para o embate cênico. O conflito, ironicamente, surge quando ela acorda “cronicamente feliz”. O que deveria ser a solução para todos os problemas torna-se, na dramaturgia de Galhardo, uma nova espécie de patologia social. “A princípio, isso é uma coisa incrível, maravilhosa, só que isso começa a trazer algumas complicações para a vida dela”, avisa a atriz.

Martha, que é amiga e colabora com Galhardo desde 2008, enxerga na peça uma reflexão aguda sobre a contemporaneidade e a “vitrine” das redes sociais. “Existe essa cobrança de ser feliz que está muito agravada hoje. A gente está felizinho em casa, vê o colega no Caribe e já começa a duvidar da própria satisfação”, analisa. Para ela, a felicidade de Flávia é um ato de resistência: “É uma felicidade consistente, madura, que não se aliena, mas que abarca todos os outros sentimentos”.

Zeca Baleiro em Felicidade no Teatro Sérgio Cardoso © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2026

Zeca Baleiro assina canções originais

Essa profundidade é amarrada com a sonoridade de Zeca Baleiro, diretor musical, autor da trilha e também presente no palco. O grande compositor maranhense abdica do papel de popstar para se tornar um elemento da engrenagem dramatúrgica. “Faço uma participação especial como uma espécie de anjo-erê, o anjo da anunciação, que vai mandando os feitiços e os desfeitiços peça fora”, revela Baleiro, com sua voz inconfundível. Sua presença em cena não é meramente ilustrativa; é o fio condutor que transforma o espetáculo no que ele chama de “teatro brasileiro musicado”. “Não ambiciona ser um musical da Broadway. É uma fábula contemporânea, feita de forma leve, suave, mas com profundidade”, define.

Luisa Micheletti em Felicidade no Teatro Sérgio Cardoso © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2026

Felicidade como obrigação

A direção de Dani Angelotti é o que dá liga a essa mistura de HQ, teatro e musical. Para Dani, o desafio era traduzir o traço de Caco e a melodia de Zeca em movimento. “O espetáculo fala sobre a necessidade da felicidade e do porquê se sentir feliz o tempo todo como uma obrigação”, pontua a diretora. Sob seu comando, o palco torna-se um campo de batalha no qual a onda feliz de Flávia colide com o estranhamento do mundo. “A felicidade desaba sobre a cabeça de uma mulher que não consegue mais deixar de ser feliz, e a humanidade tem que lidar com isso”, resume a diretora.

A retaguarda desse projeto ambicioso é sustentada pela experiência de quatro décadas de teatro da Morente Forte. Célia Forte parece visivelmente emocionada com a energia do elenco, coisa que ela e sua sócia Selma Morente adoram. Ela relembra o impacto do primeiro contato com a dramaturgia. “Essa peça tem uma energia incrível. Foi um texto que nos apaixonamos quando a Dani nos apresentou”, confessa a produtora. O esforço para viabilizar o espetáculo através do Ministério da Cultura e da Bradesco Seguros, que patrocina a obra por meio da Lei de Incentivo à Cultura, reflete a crença de que, após anos de isolamento e incertezas, o público paulistano retomou seu amor pelo teatro com todas as forças.

Felicidade no Teatro Sérgio Cardoso © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2026

Time reunido

E Martha Nowill não está só na missão Felicidade e conta com um elenco de talento que expande o universo de Flávia, além da musicista Layla Silva. O ator Eduardo Estrela, no papel de Matias, o marido da protagonista, precisa lidar com a nova e ensolarada versão da esposa. Já Luisa Micheletti interpreta Ana Cíntia, a “amiga/inimiga”, que personifica a inveja e o estranhamento social diante do contentamento alheio. Os atores Willians Mezzacapa e Raphael Gama – em alternância com Nilton Bicudo – completam o time, desdobrando-se em múltiplos personagens que orbitam o mundo feliz de Flávia, incluindo aí a mãe narcisista e o ex-namorado dos tempos de colégio.

A equipe parece concordar que Felicidade é um excelente abre-alas do ano. Como bem pontua Martha Nowill, “quanto mais gente feliz, mais a felicidade tende a se multiplicar”. Que assim seja.

FELICIDADE

Ficha técnica

Texto: Caco Galhardo. Direção Geral: Dani Angelotti. Direção Musical e participação ao vivo: Zeca Baleiro. Com: Martha Nowill, Eduardo Estrela, Luisa Micheletti, Nilton Bicudo, Raphael Gama e Willians Mezzacapa. Participação musical: Layla Silva. Assistente de direção e Coro: Raphael Gama. Colaboração artística: André Acioli. Cenário e Figurino: Kleber Montanheiro. Identidade visual: Caco Galhardo e Luciana Nunes. Designer de Luz: Gabriele Souza. Designer de Som: João Baracho. Direção de movimento e Coreografias: Zuba Janaina. Preparação Vocal: Ana Luiza. Designer: Laerte Késsimos e Luciano Angelotti. Fotos: Edson Kumasaka. Visagismo: Louise Helène. Social Media: Isabella Pacetti. Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes. Camareira: Ana Preta. Operação de som: Carlos Pereira. Operação de luz: Rafael Boese.Contrarregra e Participação: Luiz Carlos Ferreira. Microfonista e Participação: Claudi Ferreira. Assistente de produção: Juliana Barbosa. Direção de Produção: Selma Morente. Coordenação de Comunicação: Célia Forte. Produção Executiva: Camila Scheffer e Egberto Simões. Idealização: Dani Angelotti e Martha Nowill. Uma produção Morente Forte Produções Teatrais. Realização: Cubo Produções.

SERVIÇO

FELICIDADE

Estreia 07 de janeiro de 2026
Temporada: 07 de janeiro a 1º de fevereiro
Quartas, quintas e sextas-feiras às 20h; Sábados às 17h e 20h; Domingos às 17h
Classificação etária: 14 anos. Duração: 80 minutos.
Instagram: @felicidadeteatro
Ingressos: https://bileto.sympla.com.br/event/112106

Quartas:
Plateia central frente: R$ 150,00
Plateia central fundo: R$ 120,00
Plateia lateral frente: R$ 130,00
Plateia lateral fundo: R$ 100,00
Balcão: R$ 70,00

Quintas:
Plateia central frente: R$ 160,00
Plateia central fundo: R$ 130,00
Plateia lateral frente: R$ 130,00
Plateia lateral fundo: R$ 110,00
Balcão: R$ 80,00

Sextas:
Plateia central frente: R$ 200,00
Plateia central fundo: R$ 160,00
Plateia lateral frente: R$ 180,00
Plateia lateral fundo: R$ 140,00
Balcão: R$ 100,00

Sábados e domingos:
Plateia central frente: R$ 220,00
Plateia central fundo: R$ 180,00
Plateia lateral frente: R$ 200,00
Plateia lateral fundo: R$ 160,00
Balcão: R$ 120,00

Para todos os dias:
Plateia central fundo (% limitada – Valor popular) – R$ 50,00
Plateia lateral fundo (% limitada – Valor popular) – R$ 50,00
Balcão (% limitada – Valor popular) – R$ 50,00

Venda: Sympla.com.br

Teatro Sérgio Cardoso
Teatro Sérgio Cardoso | Sala Nydia Licia (Capacidade: 827 lugares)
R. Rui Barbosa, 153 – Bela Vista, São Paulo – SP

Editado por Miguel Arcanjo Prado

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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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