Letícia Soares encerra o sucesso Dreamgirls e diz: “O teatro é o que reflete a vida”

Letícia Soares encerra o sucesso Dreamgirls: estrela de primeira grandeza dos musicais no Brasil © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2024

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

Letícia Soares, aclamada como um dos maiores expoentes do teatro musical brasileiro contemporâneo e uma das mais premiadas atrizes do mercado, com mais de 20 troféus na estante de casa, encerra neste domingo (30) o estrondoso sucesso “Dreamgirls” no Teatro Santander, em São Paulo, espetáculo vencedor do Prêmio Arcanjo 2025 em Teatro Musical Internacional. Nele, protagoniza a complexa e deslumbrante personagem Effie White, que vive as dores e delícias do showbiz.

Dreamgirsl – Em Busca de Um Sonho © Caio Gallucci Divulgação Blog do Arcanjo 2025

Após uma atuação memorável em “A Cor Púrpura”, a artista fluminense de Magé, radicada em São Paulo desde 2013, solidificou sua posição como estrela de primeira magnitude do teatro musical brasileiro. Sua trajetória de quase duas décadas, é marcada pela dedicação ao palco, desde a estreia profissional em “Besouro Cordão de Ouro” até os grandes musicais como “O Rei Leão”, onde aprendeu a visão estratégica de “swing”, que hoje utiliza para aprimorar seu protagonismo.

Letícia Soares em Dreamgirsl – Em Busca de Um Sonho © Caio Gallucci Divulgação Blog do Arcanjo 2025

Nesta entrevista exclusiva ao Blog do Arcanjo, Letícia Soares compartilha com Miguel Arcanjo Prado os desafios e as alegrias de incorporar Effie, uma personagem que a exigiu a superação diária e a ensinou a ter certeza da sua força artística, em contraponto às suas próprias dúvidas. Ela detalha a emoção da catarse do público ao aplaudir de pé o dueto “Listen”, com Laura Castro, em cena aberta, um momento de sororidade fundamental no espetáculo.

Além disso, a artista revela a intenção de expandir sua arte para além do palco, com planos de investir na carreira de cantora, o que já fez neste segundo semestre no novo show, “Um Pouco Gal”, uma homenagem à liberdade sonora e pessoal de Gal Costa no Sesc Pompeia. Letícia ainda comenta o equilíbrio entre a exigente profissão e seu papel como mãe de Benício e esposa de Lucas Silvério, ressaltando o apoio fundamental de sua família em sua trajetória.

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A atriz Letícia Soares no camarim de A Cor Púrpura em 2021: performance no musical lhe rendeu 20 prêmios © Bob Sousa – Blog do Arcanjo 2021

A Força e a Liberdade no Palco: Entrevista com Letícia Soares

Retomando o Protagonismo

Miguel Arcanjo Prado – Como é retomar o posto de protagonista de um grande musical em Dreamgirls após o sucesso retumbante da sua performance em A Cor Púrpura?
Letícia Soares – Todo protagonismo ele vem sempre para mim com um alto nível de responsabilidade, né? A cada personagem é a dedicação que envolve a preparação, o desenvolvimento dessa personagem, a exigência que cada personagem tem. Retomar a esse posto é uma alegria. Pego uma personagem que já vem sendo gerada no meu coração há muitos anos e ter oportunidade de vivê-la é um baita presente! Mas acompanhado desse presente vem também a responsabilidade de dar conta dessa personagem que as pessoas esperam tanto, que eu também crio expectativas em torno dela e mas que tem me dado muitas alegrias. A Effie White ela me permite me exige superação até dos meus medos, das minhas dúvidas com relação ao meu trabalho, porque ela é uma personagem muito complexa e deslumbrante assim, né? Então, é com muita alegria, mas também com um senso absurdo de responsabilidade que eu encarei essa personagem, essa personalidade, todos os dias.

Letícia Soares como Effie White em Dreamgirsl – Em Busca de Um Sonho © Caio Gallucci Divulgação Blog do Arcanjo 2025

Os Desafios de Effie White

Miguel Arcanjo Prado – O que foi mais desafiador na construção da personagem Effie White para você? Ela passa por coisas que você também já passou? Você usou isso na construção?
Letícia Soares – A gente sempre empresta um pouco para os personagens, mas o personagem também empresta muito para a gente. E tem um lugar da Effie White que essa certeza resoluta da qualidade do trabalho dela. Essa força que às vezes o show business faz para invisibilizar pessoas que “não estão no padrão esperado” para determinadas funções. Então, talvez eu acho que eu pegue mais emprestado da Effie essa certeza, porque sou uma artista que duvida muito. Estou melhorando, mas eu ainda duvido. A vida tem me mostrado grandes caminhos, grandes possibilidades, grandes oportunidades, mas ainda trabalho muito na dúvida. Mas a Effie me ensina a ter certeza da trajetória, da força da trajetória, da força das escolhas. Pra ela, eu tenho me emprestado o corpo e a voz. E ela tem me emprestado vida ao longo desses dessas semanas de trabalho. Acho que juntas, temos muito a crescer. E acho que o maior desafio dela é essa a trajetória dela, uma trajetória muito complexa, porque a força dela tá na tá na voz. É uma partitura muito intensa para intérprete, muito intensa, a mais intensa que eu já fiz ao longo da minha carreira. As músicas são muito complexas, as falas delas exigem também muito do cantor, então a gente tem que estar se encontrando. Acho que o desafio é realmente conseguir fazer com que todos os dias a cada plateia todas sejam todas sejam surpreendidas pela força e pela beleza da Effie White.

Laura Castro e Letícia Soares em Dreamgirsl – Em Busca de Um Sonho: aplaudidas de pé em cena aberta © Caio Gallucci Divulgação Blog do Arcanjo 2025

A Catarse de “Listen”

Miguel Arcanjo Prado – No dia em que assisti, na estreia, o público aplaudiu você e a Laura Castro de pé em cena aberta, após vocês cantarem Listen. O que sentiu nessa hora?
Letícia Soares – Quando a plateia levanta, é um momento de catarse. A palma já não adianta. Só bater palma já não expressa o que ela tá sentindo naquela hora. Receber esse aplauso em cena aberta é sempre um presente para qualquer intérprete. É o momento em que você vê que o trabalho valeu. E esse dueto é muito lindo, além de ser muito importante para a história, porque é um momento de sororidade, de retomada daquela amizade que as levou até o estrelato. E, ao mesmo tempo, a amizade que foi tirada delas quando o estrelato chegou. E é uma coisa que acontece, às vezes, essa rivalidade entre mulheres. Então, é um momento muito importante do espetáculo e eu acho sempre tão bonita assim a reação da plateia nesse momento! Ver a galera levantando numa casa cheia, naquele teatro, naquele espetáculo, nesse momento histórico que a gente está vivendo ali no Teatro de Santander. Vem aquela sensação de dever cumprido e de que a peça está sendo contada, que a história está chegando nas pessoas de verdade com toda potência que ela tem.

A atriz e cantora Letícia Soares © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2023

O Futuro Além do Palco

Miguel Arcanjo Prado – Você tem uma voz fenomenal. Pretende investir mais na carreira de cantora também? Letícia Soares – Eu tenho pensado em investir sim na minha carreira de cantora, estou com um show que nasceu no Sesc Pompeia e pretendo que esse show gire bastante e tenho sim considerado guardar o registro da minha voz, porque o teatro tem essa enfermidade. O espetáculo para quem foi naquele dia, quem viu naquela aquela temporada e ele tem começo, meio e fim e quando acaba, talvez vire uma história que as pessoas relembrem, mas às vezes as pessoas até esquecem que aquele espetáculo aconteceu. Eu sou uma pessoa de teatro, sei da enfermidade do trabalho que eu que eu que eu faço, mas ao mesmo tempo eu tenho ficado vazia ao fim de cada dia, de verdade. Eu penso: “Meu Deus, eu fiz um espetáculo fantástico hoje”. E só quem viu, viu. E é um universo pequeno de pessoas, né? Aquele teatro tem mil lugares. Mesmo lotado, ainda são poucas pessoas. Quero, primeiro para mim, guardar essa o registro da minha voz, e espalhar ela por aí. A arte tem esse sempre esse desejo de se espalhar, de chegar em outras praças, em outros lugares, que não seja só a nossa bolha querida do teatro musical.

Letícia Soares, dona de voz poderosa, quer investir mais na carreira de cantora com shows como em homenagem a Gal Costa © Edson Lopes Jr. Blog do Arcanjo 2023

Show-Homenagem a Gal Costa

Miguel Arcanjo Prado – Você fez um show cantando Gal Costa no Sesc Pompeia. Como foi?
Letícia Soares – Essa beleza da liberdade que a Gal Costa sempre representou, é uma liberdade não só pessoal, mas sonora, uma artista que gravou, gravou de tudo! Acho que essa liberdade que a música brasileira tinha de ser muitas, de ser múltipla, de um samba exaltação, um bolero, bem dolente, um rock and roll muito estridente, um blues bem sentido. A Gal Costa fala dessa liberdade que todo artista quer ter. Em algum ponto da vida, todo mundo é um pouco Gal. Eu acho que eu pretendo nesse show ser um pouco Gal, emprestar um pouco dessa artista fantástica, pegar emprestado um pouco dessa artista fantástica que foi Gal Costa, que é em si uma revolução.

Letícia Soares, Lucas Silvério e Benício: família é sua principal alegria © Rafa Marques – Blog do Arcanjo
O casal Lucas Silverio e Letícia Soares © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2023

Carreira, Maternidade e Família

Miguel Arcanjo Prado – Além de ser uma estrela de primeira grandeza dos musicais, você também é mãe e esposa. Como é lidar com a maternidade e o relacionamento em uma carreira tão exigente como a sua?
Letícia Soares – Olha o que muita sorte, eu tenho uma família muito maravilhosa. Os meninos são tudo, a gente é um time muito coeso, muito forte. Não digo que seja fácil porque não é. Vocês tem repousos vocais que duram três dias sem poder falar. Tem o descanso que é uma parte importantíssima da recuperação vocal diante do tipo de música que normalmente eu escolho cantar e aí esse musical nesse momento também representa um pouco do caminho, da trajetória vocal que eu tenho ao longo desses anos aqui em São Paulo. Então, desde sempre assim, a gente é um time a favor desse trabalho que a gente faz. Minha tarefa mais prazerosa é ser mãe do Benício e ser a esposa do Lucas.

Letícia Soares, vencedora em Especial, no Prêmio Arcanjo 2023 © Edson Lopes Jr. Blog do Arcanjo 2023

A Lição do Palco e o Privilégio de Ser Artista

Miguel Arcanjo Prado – Há quanto tempo você está no mundo artístico? Qual a lição mais preciosa que aprendeu nesse tempo todo?
Letícia Soares – Vou fazer ao todo 20 anos de carreira. Comecei fazendo teatro profissional, não tive nenhuma outra escola senão o palco. Já entrando no circuito profissional com “Besouro Cordão de Ouro”, que ganhou Shell naquele ano. Já entrei no olho do furacão e só que ainda era uma coisa que eu não conseguia fazer, não dava a conta de fazer. Um espetáculo aqui, outro ali. A carreira começa mesmo quando eu venho 2013, quando eu venho para São Paulo para fazer o “Rei Leão” e aí fui emendando um trabalho atrás do outro. Sempre fazendo grandes musicais. Acho que a lição para mim é o “fazer”. Eu sou muito grata, por, ao longo desses quase 12 anos, conseguir viver de arte. Eu era funcionária pública, larguei uma matrícula pública na cidade de Macaé, eu sou de Magé e trabalhava em Macaé. E ao longo desses anos essa cidade (São Paulo) tem me dado muito. Aqui que eu vivo, aqui que eu crio meu filho, aqui que eu crio laços. É, então acho que a lição é o fazer, né? Depois de ter feito de tudo nessa vida. Trabalhei em muitas outras coisas, poder viver de arte, dizer que sou uma artista, já é um baita privilégio. E eu te confesso que o trabalho que mais me ensinou de todos ao longo desses anos foi o “Rei Leão”, onde eu fui swing e o swing ele tem uma perspectiva total do show, né? Ele é a única pessoa que sabe o show inteiro, porque sabe todas as perspectivas e ele consegue saber onde cada personagem se encontra. Essa visão de 360 me ajuda inclusive a protagonizar melhor, com o entendimento de que tudo faz parte dessa grande engrenagem e que estar protagonizando, também me faz uma peça dessa engrenagem com a diferença do da lupa que me olha, essa lente que me aumenta e que vai deixar mais em primeiro plano o meu fazer.

Ao lado de um elenco fabuloso, Letícia Soares confirma seu nome no panteão das estrelas dos musicais brasileiros com performance arrebatadora em Dreamgirls © Caio Gallucci Divulgação Blog do Arcanjo 2025

A Razão de Estar em Cena

Miguel Arcanjo Prado – Por que você faz teatro?
Letícia Soares – O teatro ele tem me dado muitas alegrias ao longo desses anos. Esse frescor diário que eu vivo a cada dia, sentir a resposta presente do público. O jogo vivo, no presente com os meus colegas. Acho que o teatro é o que reflete a vida… Eu faço teatro porque é uma forma de existir, de resistir, de fazer refletir a realidade. Para mim nunca é uma coisa gratuita. O teatro sempre fala sobre mudança de vida. Eu sempre acredito que as pessoas que vão, independente do espetáculo que a gente esteja fazendo, entram de um jeito e saem totalmente modificadas pela nossa arte. Então é por isso que eu faço teatro.

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A atriz e cantora Letícia Soares © Rafa Marques Blog do Arcanjo 2023

Letícia Soares no Raio-X do Arcanjo

Nome artístico: Letícia Soares

Data e local de nascimento: 18 de outubro, em Magé, Rio de Janeiro

Cidade onde vive: São Paulo

Signo: Libra

Formação: Serviço social

Tempo de carreira: 19 anos, sendo 12 em SP

Hobby: Tenho poucos, um deles é cozinhar

Disco: Johnny Mathis, “aquarius”, a primeira canção de musicais que ouvi

Cantor: Emílio Santiago

Cantora: Fico entre Alcione, Clara Nunes e Aretha Franklin, não necessariamente nessa mesma ordem.

Banda: Amo “Os Garotin”, de São Gonçalo,

Filme: Muitos! Mas eu gosto de “Luzes da Ribalta” e “Kill Bill”.

Série: Gosto muito de série de comédia e Arquivo X.

Novela: Não assisto.

Ator: Irandhir Santos

Atriz: tenho gostado muito da Alice Carvalho, mas eu amo Léa Garcia, e Ruth de Souza, Fernanda Montenegro, gosto das antigas.

Cidade: São Paulo.

Praia: qualquer uma de Arraial do Cabo ou Rio das Ostras

Parque: Eu gosto do Parque do Ibirapuera

Espetáculo: Eu fico entre o Rei Leão, La Miserable, Mudança de Hábito, A Cor Púrpura e agora o DreamGirls.

Medo: Tenho muitos medos. É, medo de não ser suficiente para o meu filho. Medo do sonho acabar. Eu tenho medo de perder a voz.

Alegria: viver da minha arte, criar o meu filho com a minha arte, prosperar com ela.

Teatro Musical é… uma expressão muito complexa e muito prazerosa. Um grande desafio, um esporte absolutamente radical, mas que eu amo fazer e tenho tido o privilégio de fazer ao longo desses quase 12 anos. É sonho e realização.

Editado por Miguel Arcanjo Prado

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Jornalista cultural influente, Miguel Arcanjo Prado dirige Blog do Arcanjo e Prêmio Arcanjo. Mestre em Artes pela UNESP, Pós-graduado em Cultura pela USP, Bacharel em Comunicação pela UFMG e Crítico da APCA Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Três vezes eleito um dos melhores jornalistas culturais do Brasil pelo Prêmio Comunique-se. Passou por Globo, Record, Folha, Abril, Huffpost, Band, Gazeta, UOL, Rede TV!, Rede Brasil, TV UFMG e O Pasquim 21. Integra os júris: Prêmio Arcanjo, Prêmio Jabuti, Prêmio do Humor, Prêmio Governador do Estado, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio DID, Prêmio Canal Brasil. Venceu Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio ANCEC, Inspiração do Amanhã, Prêmio África Brasil, Prêmio Leda Maria Martins e Medalha Mário de Andrade do Prêmio Governador do Estado.
Foto: Rafa Marques
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