★★★★ A VEDETE DO BRASIL Avaliação: Muito Bom Crítica por Miguel Arcanjo Prado
Só o fato de poder ver em cena uma das grandes atrizes brasileiras de todos os tempos, Suely Franco, no auge de seus 84 anos, já seria motivo suficiente para prestigiar o espetáculo musical A Vedete do Brasil em curta temporada no Teatro Faap em São Paulo. Mas, esta está longe de ser a única razão. Muito pelo contrário. A deliciosa montagem concebida por Cacau Hygino, também autor do texto com Renata Mizrahi e sob direção de Claudia Netto, conta a trajetória de Virgínia Lane (1920-2014), lenda do teatro de revista no Brasil e dona do hit eterno Sasaricando, sob produção da WB Produções, de Bruna Dornellas e Wesley Telles. Virgínia povoa a memória afetiva de diversas gerações e foi crucial para que hoje existisse uma Anitta de sucesso internacional. Num país sem memória como o Brasil, lugar que ainda precisa aprender a valorizar seus grandes artistas do passado, ver uma história como essa ser contada nos palcos é um verdadeiro bálsamo. Mas, Suely não está sozinha com seu farto carisma em cena. Ela divide o palco, com sua generosidade já conhecida, com outras duas atrizes de gerações mais novas: a graciosa e dona de um soprano poderoso Bela Quadros, que interpreta os anos de juventude de Virgínia, nas memórias da já anciã vedete vivida por Suely, e a enérgica Flávia Monteiro, que dá vida à filha da artista em diversos momentos da vida da mesma, com a noite de Natal como ponte no tempo, fazendo interessante contraponto à estrela. O público volta ao passado, aos tempos de maior ingenuidade, em meio a plumas e paetês, e ao som das hoje quase ingênuas marchinhas de duplo sentido. Dona de sua própria voz, Virgínia foi compositora de sucessos como É Baba de Quiabo e A Vedete do Brasil, que estão na envolvente trilha executada por virtuosa banda ao vivo formada pelos músicos Vinicis Teixeira (bateria), Guilherme Montanha (instrumento de sopro) e Marcelo Farias (piano digital) e sob direção musical de Alfredo Del-Penho, respeitoso à musicalidade das vedetes. O grande diferencial da peça é ressaltar a mulher precursora e à frente do seu tempo que Virgínia Lane foi, advogada que escolheu ser artista e que pagou alto preço junto à moral pública por esta decisão, mas que jamais abriu mão de sua dignidade e do direito de fazer de sua vida o que bem quisesse, mesmo em tempos nos quais à mulher não era dado outro lugar que não fosse o lar. Isso faz a Virgínia do século 20 comunicar-se com as mulheres do século 21, que não mais toleram tais antigas amarras sociais e copiam a liberdade da qual Virgínia Lane foi pioneira. No céu, ela deve estar feliz.
★★★★ A VEDETE DO BRASIL Avaliação: Muito Bom Crítica por Miguel Arcanjo Prado
APOIE o jornalismo! Fazer jornalismo cultural de qualidade é nossa missão e seu apoio é muito importante! Você pode contribuir em nossa chave pix: [email protected] Compartilhe nossas matérias e interaja em nossas redes sociais. O jornalismo cultural independente agradece!