“Se fosse machista, minha mãe me assombraria”, diz Bôscoli, filho de Elis

João Marcello Bôscoli é jurado do “The Four Brasil” na Record – Foto: Edu Moraes/Record/Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Aos 48 anos, o produtor musical João Marcello Bôscoli vive o desafio de ser jurado em um programa da TV aberta, o “The Four Brasil”, apresentado por Xuxa Meneghel às quartas, às 22h30, na Record, mesma emissora da qual sua mãe foi a maior estrela na década de 1960. Ele integra o time de analistas profissionais do reality musical ao lado dos colegas Leo Chaves e Aline Wirley.

Filho da cantora Elis Regina e do compositor, produtor musical e jornalista Ronaldo Bôscoli, João vive a música brasileira desde o útero materno.

Nesta entrevista exclusiva ao Blog do Arcanjo no UOL, o carioca radicado em São Paulo e pai do Arthur, de sete anos — fruto do relacionamento de seis anos com a apresentadora Eliana — e do André, de três — fruto do casamento com a pianista Juliana D’Agostini —, revela como vive este momento. E fala dos pais, de trabalhar com Xuxa, da televisão e, claro, de sua maior paixão: a música. Além de declarar: “Se eu fosse machista, minha mãe me assombraria”.

Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado – Como é conviver com a Xuxa?
João Marcello Bôscoli – Eu já conhecia as músicas dela e também pessoas que trabalharam com ela. O que sempre me falavam dela é o que eu vi agora: uma pessoa muito simples, despojada e brincalhona. Durante a coletiva de lançamento do programa, ela tratou da idade dela com muita maturidade. No intervalo das gravações, ela brinca, deixa todos muito confortáveis.

Miguel Arcanjo Prado — Você chegou a ser “baixinho” da Xuxa?
João Marcello Bôscoli — Por causa da minha idade, sou de 1970, não assistia ao programa da Xuxa, quando ela apareceu na TV. Minha mãe tinha acabado de falecer quando ela começou na TV. E eu já estava trabalhando. Minha primeira gravação profissional eu tinha de 11 para 12 anos. Era um período que trabalhava. Então, a conheci por meio dos profissionais de música que me falavam dela, como Guto Graça Mello, o Max Pierre. O Guto grava aqui no meu estúdio até hoje, é um mestre que trabalhou com todo mundo. Eu não assistia muito à TV nos anos 1980. Após a morte da minha da mãe, estava na rua, ensaiando, tocando.

Miguel Arcanjo Prado – Como é ser jurado musical em um programa de TV?
João Marcello Bôscoli – Não é a primeira vez que trabalho com isso. Na televisão, fui jurado do “Pop Star”, também fui do Prêmio Visa, que teve dez anos, e de outros prêmios no interior de São Paulo. Além disso, na TV comentei sete ou oito Grammys, sete American Music Awards, comentei três anos o Grammy Latino, na Turner.

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João Marcello Bôscoli, ao centro, ao lado de Aline Wirley e Leo Chaves no júri do “The Four Brasil” na Record – Foto: Blad Meneghel/Divulgação/Record – Blog do Arcanjo – UOL

Miguel Arcanjo Prado – Você repete uma função que seu pai desempenhou. Como é isso?
João Marcello Bôscoli – Meu pai, o Ronaldo Bôscoli, foi jurado do Flávio Cavalcanti, mas era muito mais perigoso… Eu também falo… Como o programa que meu pai participou era ao vivo, o que ele falava ia ao ar, eram umas barbaridades!

Miguel Arcanjo Prado – Você é mais tranquilo que seu pai?
João Marcello Bôscoli – No “The Four Brasil” posso falar o que acho. No “Pop Star”, por exemplo, nunca fui instruído a falar bem ou mal. Na maioria dos programas que vemos, há um excesso de benevolência dos jurados, que faz com que o elogio perca o valor. Sei que estamos na televisão, que num lugar fechado daria para falar mais coisas, e que fazer isso publicamente deixar as pessoas constrangidas. Já acompanhava o ‘The Four’ americano, achava o formato legal. Então, quando me chamaram, perguntei: “Eu vou poder falar o que eu quero?”. Me responderam: “Não só pode como deve”.

Miguel Arcanjo Prado – Como são as gravações?
João Marcello Bôscoli – Tem uma coisa mágica para mim que é chegar ao Estúdio da Vera Cruz [em São Bernardo do Campo, região do ABC Paulista, onde o programa ‘The Four Brasil’ é gravado]. Eu imagino o Mazzaroppi e a Tonia Carrero naquele mesmo lugar do passado. E quando a banda toca ao vivo, é incrível. O Paulo Serafim é um dos melhores engenheiros de som do Brasil. Está tudo muito profissional. O Rodrigo Carelli faz a direção geral de reality e o Marcelo Amiky faz a direção do programa. Conheci o Amiky quando ele trabalhava com o Fernando Faro, um dos maiores nomes da música na história da televisão. O Carelli conhecia da MTV e no SBT, quando ele me dirigiu nos Grammys. Então, é um reencontro de pessoas.

João Marcello Bôscoli com o filho primogênito Arthur e a ex-mulher, Eliana, em 2014 – Foto: Manuela Scarpa/Brazil News – Blog do Arcanjo – UOL

A pianista Juliana D’Agostini e João Marcello Bôscoli com André, filho do casal, em 2016 – Foto: Manuela Scarpa/Brazil News – Blog do Arcanjo – UOL

Miguel Arcanjo Prado – O que você acha do formato do “The Four Brasil”?
João Marcello Bôscoli – O formato do show baseado em audições é uma coisa que nasceu no rádio nos Estados Unidos nos anos 1920 com Major Bowes. Mais tarde, isso migrou para a TV em um teatro em Nova York, com participação da audiência por telefone e cartas. O dó maior você não inventa, mas o jeito que você faz é diferente, é um formato clássico que merece ser revisitado.

Miguel Arcanjo Prado – Como você enxerga o aumento da presença musical na TV aberta com os novos realities de cantores que estão na moda novamente?
João Marcello Bôscoli – Aumentou a música na grade da TV aberta, com uma população de novos artistas. A gente tem hoje uma fragmentação da cultura pop. É possível publicar muitas coisas, mas chegar ao público muitas vezes é complicado. Então, ter milhões assistindo em casa é um espaço importante. Quem já participou de audição sabe como é: as pessoas falam de você na sua frente como se você não estivesse ali. O “The Four” é uma audição que o cara chega com tudo a favor dele, num palco, com banda, pode ensaiar, é menos duro e mais humano que uma audição normal. É muito constrangedor fazer uma coisa e a banca ficar te criticando como se você não estivesse ali.
No programa de televisão tem um cuidado humano e estrutural maior. Eu gosto disso.

Miguel Arcanjo Prado – O cantor entra com tudo a favor?
João Marcello Bôscoli – Isso! Ali, tudo é a favor do candidato; isso humaniza. Fico feliz com esse aumento do protagonismo da música da TV, é cíclico e vivemos o ciclo de crescimento, você entra na TV aberta no horário nobre, quem é profissional pode ir atrás depois de um nome que viu e gostou, é um jeito de tirar a cabeça da multidão.

João Marcello Bôscoli, Leo Chaves, Xuxa Meneghel e Aline Wirley no júri do “The Four Brasil” na Record – Foto: Blad Meneghel/Divulgação/Record – Blog do Arcanjo – UOL

Miguel Arcanjo Prado – Você está fazendo um programa mais popular. Já está sendo muito mais reconhecido nas ruas?
João Marcello Bôscoli – Olha, Arcanjo, eu vivo num outro mundo. Eu vou aos mesmos lugares, eu vou ao mesmo supermercado, mesma padaria. Nessas duas semanas trabalhei muito e nem fui. Moro no Morumbi. Para você ter ideia, o dono da padaria trabalhava no Mercado Municipal da Cantareira, onde minha mãe fazia compra comigo criança, me conhece desde pequeno. Quando fui lá na padaria dele a primeira vez, ele me reconheceu e ficou emocionado, porque lembrava de mim criança. Então, eu convivo com as mesmas pessoas há muito tempo.

Miguel Arcanjo Prado – E seu Whatsapp?
João Marcello Bôscoli – O Whatsapp explodiu! Eu descobri com o ‘The Four’ que o Whatsapp passa de cem mensagens! Eu não sabia! Meu whatsapp explodiu, as vezes uma mensagem importante fica lá embaixo, bato o print e mostro pro meu amigo que não respondi porque tinham 103 mensagens antes [risos]

Miguel Arcanjo Prado – Qual sua relação com os outros jurados?
João Marcello Bôscoli – Converso muito de filosofia com o Leo Chaves, que adora o Schopenhauer [filósofo alemão]. Eu amo filosofia, falar sobre os efeitos da fama. O show “Falso Brilhante” da minha mãe falava disso, é o mágico que acredita no coelho da cartola. Já a Aline Wirley é muito amorosa, é carinhosa com todo muito, está muito feliz de estar lá assim como nós.

João Marcello Bôscoli no colo da mãe, Elis Regina, observado pelo pai, Ronaldo Bôscoli, e pelo “tio” Luiz Carlos Miéle – Foto: Arquivo Pessoal – Blog do Arcanjo – UOL

Miguel Arcanjo Prado – A Record fez os lendários festivais na década de 1960 que tornaram sua mãe uma estrela da emissora. Como é atuar na mesma emissora mais de cinco décadas depois?
João Marcello Bôscoli – É uma volta, os festivais foram aqui. Se por um lado a bossa nova começou no Rio, foi aqui que existiram os grandes shows do Teatro Paramount [atualmente Teatro Renault, na Bela Vista]. Minha própria mãe fez sucesso aqui, em São Paulo. Mas acho que Rio e São Paulo sempre estiveram ligadas. Se crescerem mais, se fundem. Minha mãe mesmo, ora morava no Rio, ora em São Paulo. Eu cresci assim, tanto no Rio quanto em São Paulo, tenho amigos de infância nas duas cidades.

Miguel Arcanjo Prado – Você é uma figura de São Paulo que tem fortes relações com o Rio?
João Marcello Bôscoli – O Nelsinho Motta, que é meu padrinho do coração, mora no Rio. O Roberto Menescal, que é meu tio, pois era irmão do coração do meu pai, também mora lá. Trabalhei com Ed Motta muitos anos. Tenho uma relação legal com o Rio. Aldir Blanco, um dos meus letristas favoritos, é de lá. Fico preocupado com a cidade, fico triste com as notícias sobre o Rio, mas precisamos ter fé e trabalhar para isso [melhorar a situação do Rio]. Em termos profissionais e musicais, acho que tem de haver uma descentralização, ir para fora do eixo SP-Rio. Existe no Brasil, um país de dimensões continentais, uma concentração muito grande da indústria cultural nessas duas cidades. Descentralizar é bacana.

João Marcello Bôscoli ao lado da mãe, Elis Regina, e dos dois irmãos, Maria Rita e Pedro Camargo Mariano – Foto: Arquivo Pessoal – Blog do Arcanjo – UOL

Miguel Arcanjo Prado – Em Belo Horizonte, que é minha cidade natal, atualmente tem uma nova cena musical incrível.
João Marcello Bôscoli – Eu estou sabendo isso. O Tutti Maravilha [radialista da Rádio Inconfidência, na capital mineira] é um amor, um amigo muito querido, ele sempre me conta o que rola lá. Ele é muito sintonizado com isso. Outro dia fui entrevistar o André Midani [grande nome do mercado musical], e o Tutti me mandou uma foto minha moleque.

Miguel Arcanjo Prado – E o Tutti Maravilha toca duas músicas da sua mãe todo dia no programa dele, no quadro “Coisa de Comadre”. Aliás, conheci a obra de Elis ouvindo o Bazar Maravilha desde criança.
João Marcello Bôscoli – Tutti Maravilha é um dos melhores amigos da música brasileira. Manter o programa “Bazar Maravilha” no ar por 30 anos é preservar nossa memória. O Brasil precisa saber quem foi Elizeth Cardoso, Silvia Telles, Dolores Duran.

Miguel Arcanjo Prado – Como viu a série na Globo no começo do ano sobre sua mãe, a partir do filme “Elis” do Hugo Prata?
João Marcello Bôscoli – Gostei muito e soube que a audiência de “Elis” na Globo foi muito boa. Soube dos números e fiquei muito feliz. A Elis é um fenômeno curioso. A exposição da minha mãe em 4 capitais foi um sucesso, como o show da Maria Rita, o documentário e o livro gratuito. É difícil encontrar alguém alguém que não conheça pelo menos cerca de dez músicas de Elis Regina. “Como Nossos Pais” é uma das músicas mais escolhidas por cantoras e também nos karaokes. Elis foi muito tema de novela…

Andreia Horta como Elis Regina na série da Globo “Elis”: sucesso de audiência mostra que a Pimentinha está mais viva do que nunca – Foto: Divulgação/Globo – Blog do Arcanjo – UOL

Miguel Arcanjo Prado – Sua mãe segue viva de alguma forma.
João Marcello Bôscoli – Tem alguma coisa nela que transcende a questão musical, que faz com que ela estivesse muito viva… Quando a Globo fez o “Por Toda a Minha Vida”, o primeiro foi com ela. Elis dá prestigio e é popular. Depois dessa série de agora, havia muitas buscas na internet que associavam ela ao empoderamento feminino, por exemplo. As pessoas mais novas se encantaram com o discurso da minha mãe.

Miguel Arcanjo Prado – O que você acha da Anitta?
João Marcello Bôscoli – Eu curto Anitta. O povo pega o pé dela, é doentio. Ela é uma cantora que dança. Se não quiser ouvir, não ouve. Ela faz um pop music fenomenal.

Miguel Arcanjo Prado – Sua família tem mulheres fortes.
João Marcello Bôscoli – Digo que lá em casa o povo é megaempoderado desde sempre. Minha avó, mãe do meu pai, se separou na década de 1930. A Chiquinha Gonzaga, que é minha trisavó, era bissexual, tocava piano, fumava charuto, tinha relacionamentos inter-raciais, namorava homem mais novo e fez a primeira marchinha de Carnaval do Brasil. Na minha casa, as mulheres sempre ganharam. Meu pai dizia que foi nossa família quem trouxe a loucura para o Brasil. Então, não teria como eu ser machista. Se eu fosse machista, minha mãe me assombraria.

João Marcelo Bôscoli é jurado do “The Four Brasil” na Record – Foto: Edu Moraes/Record/Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Miguel Arcanjo Prado – Você curte atuar nos bastidores da música?
João Marcello Bôscoli – O que eu me propus e sempre sonhei foi a produção musical. Olhava os discos e via: “produzido por Quincy Jones”. Eu achava interessante aquilo, comecei a aprender que o produtor musical é mistura do que é no cinema o produtor e o diretor. Fui estudando as coisas, músico, arranjador. Fui trabalhando desde muito cedo. Não fico guardando nem expondo meu currículo, talvez faça para mostrar ao meu filho, que já está com sete anos [Arthur Bôscoli, filho do relacionamento com a apresentadora Eliana]. Já lancei 3.500 discos, toquei com mais de 50 artistas.

Miguel Arcanjo Prado – O que seus pais achariam de você hoje?
João Marcello Bôscoli – Meu pai iria me criticar porque trabalho muito. Nesse ponto peguei a verve da minha mãe, trabalho 12 dias e descanso dois, quando era novo, trabalhava 16, 18 horas. Hoje, por ser pai e pela própria saúde, trabalho ao menos 12 a 14 horas por dia com muito prazer. O brilho, o estrelato é o efeito colateral do meu trabalho. Faço o que acredito e sinto bem que as pessoas gostam. Se o público gostar é bem-vindo, se não gostar, vamos continuar fazendo. Gosto de fazer as coisas com sinceridade. A minha mãe iria gostar sim. Não coloco meu talento em algo que não acredito. É claro que é preciso saber ouvir o outro, principalmente os amigos. O amigo não é o algoz, o amigo é aquele cara que arrisca e diz “porra, meu, não faz isso”. Eu escuto muito muito meus amigos. Meus amigos não precisam falar duas vezes. São minha família.

Agradecimentos: Ana Paula Aido e Bob Sousa.

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