“Entendo os brasileiros que querem ir viver no Uruguai”, diz Sergio Blanco

O dramaturgo franco-uruguaio Sergio Blanco, autor e diretor de “El Bramido de Düsseldorf”, peça que foi sucesso no último Mirada – Foto: Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

O dramaturgo franco-uruguaio Sergio Blanco é o novo querido internacional do teatro brasileiro. Sua nova obra, “El Bramido de Düsseldorf”, foi destaque do último Mirada – Festival Ibero-Americano de Artes Cênicas, realizado pelo Sesc São Paulo na Baixada Santista entre 5 e 15 de setembro.

Com o excelente trio de atores formado por Walter Rey, Gustavo Saffores e Soledad Frugone, a obra foi apresentada em Santos e também no Sesc Avenida Paulista no último fim de semana com ingressos esgotados e importantes nomes do teatro brasileiro na plateia. Trata-se de uma “autoficção”, estilo que ele afirma adotar e no qual mistura mentira e verdade em um engenhoso jogo, no qual sobra ironia com o próprio teatro e suas formas/fórmulas de sucesso.

Autor também de “A Ira de Narciso”, montada recentemente no Brasil, Sergio Blanco conversou com o exclusividade com o Blog do Arcanjo no UOL em uma pequena pauta antes de almoçar no Sesc Santos. Falou sobre a nova peça, comentou o atual momento político brasileiro e latino-americano e ainda revelou o que pensa de alguns brasileiros andarem sonhando em viver no Uruguai, sua terra natal que trocou há muitos anos por Paris.

Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado — O que acha de alguns brasileiros sonharem em ir morar no Uruguai?
Sergio Blanco — Eu creio que é interessante querer ser uma coisa que um não é. Em termos filosóficos, me parece bom que alguém queira atentar contra sua identidade.

Miguel Arcanjo Prado — Como assim?
Sergio Blanco — Me parece que é um impulso saudável dizer: “Eu não quero ser isso”. O que é ser brasileiro? É tudo uma construção! E me parece que é interessante alguém dizer: eu quero ir ao Uruguai. Em termos de sociologia, se está trabalhando muito o tema das migrações identitárias.
Não somente ir a outro lugar, mas ficar neste outro lugar. Me parece saudável e interessante.

Miguel Arcanjo Prado — Por que acha que alguns brasileiros querem ir viver no Uruguai?
Sergio Blanco — Entendo os brasileiros que querem ir viver no Uruguai. Porque é um país nessa região que se posicionou nos últimos anos como um país que avançou muito em muitos aspectos.

Miguel Arcanjo Prado — Quais?
Sergio Blanco — Por sorte, o Uruguai é um país que não vive apenas de valores econômicos, mas também de valores de direitos humanos, de valores de progresso social, no sentido de avançar os direitos das pessoas.

Miguel Arcanjo Prado — Como isso aconteceu?
Sergio Blanco — Isso não é por azar. É uma vontade política, fruto de decisões políticas que foram tomadas nos últimos 14 anos no Uruguai, que marcam claramente a chegada da esquerda ao poder, o que resultou em uma mudança radical, fruto de políticas sociais que estão baseadas em considerar o outro imprescindível para a construção social. Então, eu posso entender que, diante do que está se passando no Brasil neste momento, essa violência que vocês estão vivendo, esse desmoronamento dos princípios democráticos mais básicos, essa questão da corrupção, do roubo, do poder que se toma de forma arbitrária, se olhe para o Uruguai.
Até porque o Uruguai sempre foi um país que acolheu bem os imigrantes. É um país que está avançado em uma quantidade enorme de temas.

Plaza Independência, centro de Montevidéu, capital do Uruguai: sonho de muitos brasileiros diante do Brasil atual – Foto: Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Miguel Arcanjo Prado — Então você entende quem queira trocar o Brasil por Uruguai?
Sergio Blanco — Eu entendo quem queira ir ao Uruguai. Nesse momento, o parlamento uruguaio discute uma lei de transexualidade como poucos países no mundo. Temos o matrimônio igualitário, uma série de políticas sociais de consideração com o outro, a lei do aborto, todo o tema de gênero, a descriminilaziação de determinadas drogas. Uruguai é um país que está em meio de uma região onde estão passando coisas desastrosas, como no Chile, Brasil, Argentina, o desastre da Venezulea, Nicarágua, mas que se constrói como um país sólido e com instituições democráticas sólidas. O que se passou aqui no Brasil não passaria no Uruguai, por exemplo.

Miguel Arcanjo Prado — Por que você virou o queridinho do teatro brasileiro? O que você tem?
Sergio Blanco — Não! Há um erro do produtor! Alguém se equivocou! Não… Eu creio que não saberia como explicar-lhe. Haveria que explicar isso às pessoa [risos]. Não posso muito vir ao Brasil, sempre que venho é por conta dos meus espetáculos, mas é sempre muito agradável ser querido, ser convidado, que os diretores te chamem. Me sinto muito grato. Para mim o que me interessa muito é a tradução para o português, que é uma língua que admiro muito e tenho um prazer profundo que minhas obras estejam sendo traduzidas para o português.

Miguel Arcanjo Prado — O que você tem de especial?
Sergio Blanco — O que tenho eu? Não sei, não sei… Trabalho muito! E tenho sorte!

Walter Rey, Gustavo Saffores e Soledad Frugone em “El Bramido de Düsseldorf”, peça de Sergio Blanco – Foto: Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Miguel Arcanjo Prado – O que você me diz de “El Bramido de Düsseldorf”?
Sergio Blanco — É uma obra que está no gênero que eu trabalho, que é a autoficção. Mas o primeiro que ela tem é uma equipe de pessoas extraordinárias. Muitas pessoas reduzem a criação a “Sergio Blanco”. Bom, “Sergio Blanco” é porque esto eu, e é esse o sistema, mas é uma equipe de mais de 12 pessoas que trabalham. É poder ver os atores extraordinários, a equipe criativa que fez um trabalho de cenografia, vestuário, música e de som que é maravilhoso. Matilde López da Marea que fez uma produção que é ótima. As pessoas não pensam o que é uma produção, o que custou a essa pessoa mobilizar contatos e dinheiro, o produtor também cria o espetáculo do seu lugar.

Miguel Arcanjo Prado — O que tem essa obra?
Sergio Blanco — Estamos todos no entorno de temas que nos tocam a todos. A peça conta a viagem do personagem Sergio Blanco a Düsseldorf com seu pai, que acaba tendo um ataque cardíaco e começa a morrer. Não sabemos muito por que o personagem está aí, se é para escrever roteiros para filmes pornôs, se é porque quer se converter ao judaísmo ou se está escrevendo um catálogo para uma exposição sobre Peter Kürten, que foi o maior serial killer da história alemã. Isso nos permite abordar vários temas, a morte, a sexualidade, Deus e a fé, a filiação… De alguma maneira, esses temas tocam toda a equipe. Creio que o que se destaca é o trabalho coletivo em equipe. O teatro tem isso: a produção de sentidos é sempre coletiva. Para mim, como dramaturgo, que é um trabalho muito recluso e solitário, estar com uma equipe de 12 pessoas é maravilhoso.

Por Miguel Arcanjo Prado*
Enviado especial a Santos (SP)

*O colunista Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Mirada e do Sesc São Paulo.

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