Fora da TV, Denise Fraga é sucesso no palco: Fazer teatro chato é sacanagem

A atriz Denise Fraga no camarim da peça A Visita da Velha Senhora, em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso em São Paulo após rodar o Brasil com sucesso de público e de crítica – Foto: Bob Sousa – Blog do Arcanjo – UOL

Atualmente fora da televisão, Denise Fraga coleciona sucessos no teatro. Ela acaba de ganhar o Prêmio Aplauso Brasil de Melhor Atriz no voto popular por seu desempenho no espetáculo “A Visita da Velha Senhora”.

A peça do suíço Friedrich Dürrenmatt dirigida por Luiz Villaça, marido da atriz, acaba de voltar para São Paulo, no Teatro Sérgio Cardoso, após lotar sessões por todo o Brasil. Aliás, ter ingressos esgotados mesmo em tempos de crise econômica virou algo comum em suas montagens, dona de público fiel.

E ela faz por onde. Aos 53 anos, esta carioca radicada em São Paulo faz questão de receber cada espectador na porta do teatro, antes de a peça começar. Carismática, conversa com todos.

Em Brasília, um senhor lhe chamou a atenção, ao chegar dizendo que havia ouvido sua entrevista no rádio e, mesmo sem gostar muito de teatro, tinha vindo com a família conferir toda aquela paixão pelo ofício demonstrada pela atriz. Ao fim da peça, o homem e sua família estavam completamente emocionados.

A atriz que já fez mais de 24 trabalhos na TV, 23 filmes e 12 peças de teatro recebeu com exclusividade o Blog do Arcanjo no UOL para uma entrevista sem pressa no escritório de sua produtora, nos arredores da praça Vilaboim, um dos cantos mais charmosos do bairro paulistano de Higienópolis.

Durante o papo que se arrastou por toda a tarde e depois terminou em um café nas redondezas, ela falou sobre o sucesso nos palcos, do que viu pelo Brasil, o que a faria voltar para a TV e ainda deu sua opinião sobre os rumos políticos às vésperas das eleições que andam tirando o sono de muita gente.

Leia com toda a calma do mundo.

Miguel Arcanjo Prado — Você acaba de ganhar o Prêmio Aplauso Brasil de Melhor Atriz pelo voto popular. Na cerimônia, me chamou a atenção o discurso de Miguel Falabella, que ganhou Melhor Direção no voto popular e o pelo júri técnico, quando ele reclamou que os prêmios eram diferentes [uma placa para o prêmio popular e um troféu para o prêmio técnico], dizendo que o prêmio popular tinha de ser mais valorizado, pois é dado pelo povo, para quem faz seu teatro, e deveria ter uma estatueta igual ao do júri popular. Você também faz teatro para o povo?
Denise Fraga — Sem dúvida nenhuma. Eu também pensei a mesma coisa. Por que quem ganhava prêmio do voto popular ganhava uma placa e quem ganhava do júri técnico ganhava uma estatueta? Eu achei: a gente podia ganhar igual. Eu sempre me preocupei com o público. O teatro que eu resolvi fazer tem a preocupação com a comunicação. Sempre pensei o que poderia fazer com este público herdado da televisão, do sucesso da peça “Trair e Coçar É Só Começar”. Sempre me preocupei com que o público visse coisas mais interessantes no teatro do que eles esperavam da minha pessoa.

Miguel Arcanjo Prado — Como fazer isso?
Denise Fraga — Com bons autores que são populares. Um marco é “A Alma Boa de Setsuan”, que fiz entre 2008 e 2010 e que é do [dramaturgo alemão] Bertolt Brecht. A peça foi dirigida pelo Marco Antonio Braz e fala com todos. Antes, também fiz lá atrás “Esperando Godot”, de Samuel Beckett, com o Moacir Chaves dirigindo comigo e o Rogério Cardoso, em 1991. O Moacir falava isso: essa peça é popular e precisa ser feita por comediantes. Essa mesma ideia estava na minha parceria com o Luiz Villaça em “Retrato Falado” no “Fantástico”: um programa que é popular, mas é sofisticado. A gente não tem de abrir mão dessa dualidade. Por que é popular você não tem de facilitar. As pessoas acham que para ser popular precisa ser fácil. Não é fácil ou raso, precisa ser claro!

Miguel Arcanjo Prado — Antes de “A Alma Boa de Setsuan” você ficou fora do teatro um bom tempo. Por quê?
Denise Fraga — Foram sete anos longe do teatro. Meus filhos estavam pequenos, e eu estava gravando muito o “Retrato Falado”. Então, quando fui voltar, pensei muito no que eu queria dizer no teatro. Li muitas coisas com o Marco Antonio Braz até chegar no “A Alma Boa de Setsuan”. Precisamos montar essa peça, pensamos juntos. Hoje, o que me move para estar em cena é poder mostrar: “olha o que eu li, o que escreveram e estava empoeirado ali na estante e agora eu estou aqui para dar brilho a essas palavras e jogá-las no colo de vocês”.

Miguel Arcanjo Prado — E o que te moveu em “A Visita da Velha Senhora”?
Denise Fraga — Falo que estou encerrando uma trilogia, após “A Alma Boa de Setsuan”, “Galileu Galilei” e agora com a “A Visita da Velha Senhora”. A trilogia de nosso eterno dilema entre a ética e o ganha pão. Tem uma coisa que me angustia que é essa questão do quanto a gente se vende e precisa se distanciar de si mesmo, do seu ideal, em nome do ganha pão. Isso as três peças têm. Essa questão da ditadura do poder econômico.

Miguel Arcanjo Prado — Como assim?
Denise Fraga — A gente fala que vive numa liberdade, numa democracia, mas a gente tem o jugo muito grande de uma sociedade que a gente inventou para viver pautada pelo que rende. Você vale o que você rende. Você tem projetos incríveis na gaveta, mofando, e tem de colocar muitas vezes por cima aquele que vai dar algum dinheiro. E eu sinto que isso virou mais um hábito do que uma necessidade, na medida que hoje a gente fala: “não rende nada”. E você não sabe nem se você está disposto a ganhar menos dinheiro. As pessoas não estão se dando a chance de deixar de ganhar.

Miguel Arcanjo Prado — Por quê?
Denise Fraga — É claro que está todo mundo correndo atrás do seu ganha pão, e vai ter de fazer mesmo concessões para pagar os boletos, porque não tem jeito. Mas isso gera uma angústia. E eu tenho essa angústia. E isso está nessas peças que faço. Em “A Alma Boa de Setsuan”, ela se traveste de homem para conseguir dizer não, porque se ela continua a ser boa ela é abusada. Ela fala: “como é que eu posso ser boa se eu tenho de pagar o aluguel?”. Já o Galileu quer continuar tomando seu vinho bom, mas ele para isso precisa fazer conchavos com o poder e para fazer conchavos com o poder ele precisa negar que a Terra gira em torno do sol. E esse é o personagem da minha vida!

A atriz Denise Fraga no camarim da peça A Velha Senhora: “Fazer teatro chato é uma sacanagem” – Foto: Bob Sousa – Blog do Arcanjo – UOL

Miguel Arcanjo Prado — E A Visita da Velha Senhora?
Denise Fraga — É uma história de vingança de uma mulher que volta à cidade natal disposta a matar o cara que a sacaneou, mas o autor é um gênio popular, assim como Brecht, que era um autor de cabaré. Brecht falava que tem de divertir para comunicar. Eu acho que o teatro tem de encantar, seduzir. Quando o Miguel Falabella fala que faz teatro para o povo, eu concordo: eu faço teatro para o povo, porque todo o tempo a gente precisa se comunicar e seduzir. Teatro não pode ser chato. Acho até que teatro pode ser chato em outras instâncias, mas, num país como o nosso, onde a educação está jogada às traças, e onde o código ético está tão deteriorado, a gente não pode fazer teatro chato. Fazer teatro chato é uma sacanagem.

Miguel Arcanjo Prado — Por quê?
Denise Fraga — Porque o Brasil não tem formado cidadãos aparelhados. Precisamos cuidar da educação. A arte é fundamental na sociedade. Toda civilização que se preze preserva sua arte. Em países desenvolvidos levam as crianças desde cedo ao museu, ao teatro, elas leem Shakespeare. Por quê? Porque a arte ajuda a gente a viver. A arte existe como natureza humana.

Miguel Arcanjo Prado — Arte é fundamental?
Denise Fraga — Claro! Certa vez fui ao Museu de Antropologia do México e fiquei muito tocada. Porque todos os povos primitivos de lá, os Astecas, os Maias, todos comiam, bebiam, se reproduziam, tinha alguma ligação com o sagrado e faziam arte. A arte assim como a tentativa de compreensão da conexão com o sagrado, junto da comida, bebida, sexo e reprodução tinha em todos os povos. Era um ponto em comum. Ninguém falou que a gente precisa de tanta coisa para viver. Se você ver por essência, o homem precisa mais de arte do que de viaduto. O homem das cavernas desenhava nas paredes. A arte tem uma coisa de reconhecimento. E toda nação desenvolvida reconhece isso. Imagina o mundo sem teatro, sem cinema, sem arte? Sem um lugar poético no qual possamos nos reconhecer?

Miguel Arcanjo Prado — Quem consome arte é uma pessoa melhor?
Denise Fraga — Sim. Se você pega duas pessoas com a mesma escolaridade e uma vai ao teatro, ao cinema e lê livros e a outra, não, a diferença de preparo para a vida é imensa.

Miguel Arcanjo Prado — Por que você acha que nos últimos anos se tem demonizado tanto no Brasil a arte e os artistas? Por que muita gente pega episódios isolados e polêmicos para criar um discurso perigoso que demoniza os profissionais da arte?
Denise Fraga — Teve um uso político de polêmicas. É muito fácil essa difamação aos artistas. É fácil nos tirar da jogada, porque sempre os artistas fizeram a diferença. Como eu sinto que tem uma grande parcela da população que foi afastada da arte, foi deixada de lado… Quando você não afofa a terra, dá nisso.

Miguel Arcanjo Prado — Com assim?
Denise Fraga — A arte serve para afofar a terra humana, criar esse ser fértil, sensível. A arte educa a sensibilidade. Ela educa nossa capacidade de percepção. Essa massa afastada da arte é uma massa muito mais manipulada e sujeita aos radicalismos, aos fundamentalismos, aos dogmas. E aí realmente é fácil falar que artista não presta. Essa massa afastada da arte vai acabar acreditando.

Detalhe do camarim de Denise Fraga em A Visita da Velha Senhora: “Faço teatro de qualidade para todos os públicos” – Foto: Bob Sousa – Blog do Arcanjo – UOL

Miguel Arcanjo Prado — A arte precisa falar mais sua importância?
Denise Fraga — Tanta coisa boa acontece com as leis de incentivo e o que sai no jornal é só coisa ruim. Ninguém mostra o que aconteceu de bom com as leis de incentivo à arte. Hoje, São Paulo é uma das cidades mais plurais do mundo em termos artísticos. E o turismo cultural que acontece em São Paulo movimenta cifras milionárias na economia da cidade. Eu digo isso porque eu recebo pessoalmente as pessoas no teatro. Ninguém me contou. Eu converso com as pessoas há dez anos na porta do teatro. Vejo gente que veio de todas as partes do Brasil para consumir cultura em São Paulo. Essa gente vem ver teatro, cinema, museus, em férias, feriados e fins de semana. E essa gente se hospeda em hotel, vai a restaurantes, faz compras, movimenta a economia. A cultura, além de tudo de bom que proporciona, é também uma grande economia! Emprega muita gente de forma direta e indireta. Ela precisa ser tratada com respeito!

Miguel Arcanjo Prado — Como você consegue ter um público tão fiel?
Denise Fraga — O meu público vem em todas as minhas peças minhas. É um orgulho e fruto de um trabalho continuado. Eu deveria ter um marqueteiro para sair falando todos os meus números, mostrando que emprego 19 pessoas diretamente e mais 50 de forma indireta, o que movimento de grana com a passagem da peça por cada cidade! Eu tenho o José Maria, que é meu produtor e um homem de teatro maravilhoso, que é de uma ousadia junto dessa louca aqui que desbravam juntos lugares dos mais distantes. Em “Galileu Galilei” fizemos de teatro perfumado de shopping aos CEUs na periferia de São Paulo e todo Circuito Cultural Paulista. Teatro de qualidade para todos os públicos.

Miguel Arcanjo Prado — E importante falar com todos?
Denise Fraga — Sim! Tenho aquele espectador que queria ter ficado em casa vendo o futebol e a mulher leva para o teatro. E você vê aquela cara dele assim: “e aí, você vai me fazer rir muito?”. Você vê esse cara lá sentado e vai vendo ao longo da peça a transformação que ele passa. Ele termina a peça de boca aberta! Já vi isso acontecer muitas vezes, Miguel, é muito bonito! Eu olho meu público, eu me preocupo com ele. Eu quero fazer coisas com humor porque acredito que o humor é uma arma muito eficaz para a reflexão. O humor chama o cara pela inteligência. Ninguém ri daquilo que não entende. A risada do público me assegura que ele está entendendo a peça. Nessa peça, o autor escrevia novelas policiais para o rádio. Ele tem gancho a cada cena. Cada noite a gente fala: “olha o que ele escreve aqui!”.

Miguel Arcanjo Prado — Você acaba de viajar todo o Brasil com sua peça. Que Brasil é esse que você viu?
Denise Fraga — De um lado me enchi de esperança ao ver o povo indo ver teatro. Mas, por outro, dá muita tristeza. Vi muito mais gente morando nas ruas em todas as cidades. E a gente começou a tratar isso como normal. Você vê as famílias nas ruas com seus pertences, seus utensílios, coisas que há pouco tempo você percebia que estava em uma casa e hoje está na rua. E também há uma grande perda cultural. Porque vejo que os produtores culturais locais de cada cidade estão sem dinheiro para levar uma peça com um elenco numeroso, uma peça viajando com 19 pessoas. Adoro meus amigos do stand-up, mas eu sinto que a facilidade do ganhar dinheiro no teatro que o stand-up representa fez um mal grande para o público. Cidades como Fortaleza ou Recife não recebem mais os grandes espetáculos que recebiam. Mas me dá esperança de ver ainda as pessoas indo ao teatro, doidas para que você os seduza. Uma das coisas que senti foi que o motivo de sucesso da peça é a própria crise. Estou lotando o teatro porque a peça de alguma maneira é um bálsamo para os tempos que estávamos vivendo.

Miguel Arcanjo Prado — De que modo?
Denise Fraga — A peça “A Vista da Velha Senhora” dá voz à nossa angústia. O teatro dá palavra. O evento teatral virou uma coisa muito preciosa nesse tempo em que estamos nas nossas telas lendo coisas curtas. Esse mergulho que o teatro fornece, com o celular desligado, nos deixa vivos. No teatro, estamos todos vivos. Quando toca um celular na plateia, é claro que eu fico puta porque não é bom, porque desestrutura, mas eu também penso: olha como é interessante, significa que estamos aqui mesmo, vejo todo mundo fazendo aquele zunzunzum, pedindo para apagar o celular, para continuarem todos ali comigo, vivos. É um milagre!

Denise Fraga no camarim de A Visita da Velha Senhora: “Não é possível que a gente ache agora que devemos sair por aí com arma na mão” – Foto: Bob Sousa – Blog do Arcanjo – UOL

Miguel Arcanjo Prado — Como você vê essas eleições de outubro deste ano?
Denise Fraga — Ninguém sabe, né? O que todo mundo está muito assustado é que não conseguimos dimensionar ainda o prejuízo, que todos tivemos. Houve um retrocesso muito grande, um retrocesso de ideias. Estávamos caminhando para uma coisa mais aberta mentalmente. Não sei o que foi, se foi a internet, em nome de querer salvar-se da corrupção que ficou escancarada, mas muita gente começou com um discurso que muitas vezes é mais perigoso que qualquer coisa. Estou assustada como qualquer um. Mas também aconteceu uma coisa que pode ser boa: as pessoas ficaram mais politizadas, mais atentas. O que eu espero é que as pessoas pesquisem mais, tentem achar caminhos diferentes para esse pântano que a gente se enfiou.

Miguel Arcanjo Prado — Como vê candidatos com discurso radicais e violentos?
Denise Fraga — Fico preocupada ao sentir que há candidatos com um despreparo muito grande. O show de retórica na internet é sedutor até a página dois. Esse discurso travestido de certo, justo, moral é muito perigoso. É um show de opinião e pouco fato. As pessoas estão embarcando em discursos alheios frágeis, que só é uma retórica desprovida de fatos e verdades. Gente, o Trump foi eleito, porque os EUA é um país desenvolvido, mas tem também aquele interior! O que elege candidatos com esse pensamento mental tão curto é o umbigo. São pessoas que estão ligadas ao seu umbigo.

Miguel Arcanjo Prado — Você já tem candidato?
Denise Fraga — 
Eu não tenho candidato e ainda não sei como vou votar. Eu uso uma hashtag #somostodosprofessores, essa classe que tanto admiro e é tão pouco valorizada no Brasil. Eu acho que é da nossa alçada conversar, educar. As pessoas dizem: “não dá para conversar”. Dá para conversar, sim, e eu já convenci dois taxistas a não votar em determinado candidato. Quem está seguindo essa linha do retrocesso, essa coisa militarista, dessa vontade de segurança e arma na mão, é muito fruto de ignorância e de falta de conhecer outras coisas, que precisam ser ditas por nós. Porque onde eles estão procurando, não vão achar. Precisa pegar um táxi e ir falando não que o candidato dele é terrível, mas contando coisas que podem esclarecer a cabeça dele num outro sentido. Eu não tenho nem em quem dizer para ele votar. Mas o que eu quero dizer é que não é possível que a gente ache agora que devemos sair por aí com arma na mão.

Miguel Arcanjo Prado — O artista precisa estar presente na sociedade?
Denise Fraga — Alguém outro dia me perguntou se todo artista tem de ser engajado, eu respondi: todo médico tem de ser engajado, todo jornalista tem de ser engajado, todo engenheiro deve ser engajado, porque se você pensar na palavra engajamento significa que todos estamos vivendo juntos, no coletivo, o seu problema é o meu. A falta de solidariedade, esse o problema dele não é problema meu, é o que provoca essa crise. Estamos nos distanciando do humano, do que é a nossa natureza.

Miguel Arcanjo Prado — Qual é nossa natureza?
Denise Fraga — Nossa natureza é solidária. Outro dia li uma frase do Paul Singer que diz que o nosso desafio é se equilibrar entre nosso instinto de sobrevivência e nosso instinto de solidariedade. Ele fala de solidariedade como um instinto. Se você cair aqui, eu vou te amparar. Meu instinto humano é proteger o meu igual. E estão querendo dizer que não somos assim. Eu sou assim. Sabe o que acontece com essa desumanidade? Ficamos distanciado do homo sapiens, da nossa natureza humana, a gente se distancia do que nos é intrínseco. E o que acontece? Começa o buraco no peito. E dá-lhe rivotril!

Miguel Arcanjo Prado — Precisamos olhar mais para o outro?
Denise Fraga — A nossa essência é solidária, é compartilhar. Somos um bicho feito para viver em bando, não somos leopardo, a gente não caça sozinho. Não somos um ermitão no deserto. E estão querendo incutir isso na nossa cabeça porque isso é comercialmente bom. O homem tem de servir a economia e não a economia tem de servir ao homem. Fizeram leis e economia para a gente viver em sociedade, mas o que fica para muita gente é a economia como primeira lei. Existe a economia, existe o Estado, existe a lei e existe a gente. E não que existe isso tudo porque, antes, a gente existe.

A atriz Denise Fraga no camarim da peça A Visita da Velha Senhora: “Na televisão, quero uma ótima personagem” – Foto: Bob Sousa – Blog do Arcanjo – UOL

Miguel Arcanjo Prado — Quando você volta para a TV?
Denise Fraga — Eu não tenho projeto para a televisão ainda. Esse ano eu filmei dois longas, o “45 do Segundo Tempo”, do Luiz Villaça, que é um filme de um reencontro de amigos muitos anos depois, com o Tony Ramos, o Cássio Gabus, o Ary França. E fiz o “Música para Cortar os Pulsos”, do Rafael Gomes, um roteiro muito bonito de uma galera jovem com várias formas de amor. Acho que os dois devem estrear ano que vem. E acabou de ganhar o Anima Mundi o filme de animação “Tito e os Pássaros”, de Gustavo Steinberg, Gabriel Bitar e André Catoto. Tem oito anos que fiz, imagina o que é animação? Fizemos leituras e os desenhistas foram fazendo. Eu já tinha dublado, mas nunca tinha virado uma animação. A bonequinha lá parece eu, ela gesticula muito com as mãos [risos]!

Miguel Arcanjo Prado – A Record e o SBT não te ligaram fazendo nenhum convite?
Denise Fraga – Olha, Miguel, eu faço muito teatro. Quando eu tinha um convite, eu estava fazendo teatro. Quando eu fiz “A Lei do Amor” na Globo no ano passado consegui encaixar num período que eu tinha folga do teatro. O que acontece é que eu sempre estive na TV Globo com um projeto. Entrei para fazer o “Vida ao Vivo Show”. Nunca estive na Globo esperando o telefone tocar para saber o que iria fazer lá dentro. Eu tenho uma parceria com o Luiz Villaça que foram nove anos dentro do “Fantástico”, depois fizemos “A Mulher do Prefeito”. Mas quando tive de assinar um contrato longo sem saber o que eu iria fazer, me deu um nervoso, porque eu não tinha um projeto. Eu sei que eu sou um caso especial, que talvez me deixou mal acostumada, sempre estive na televisão fazendo coisas de corpo e alma. Eu fui feliz na televisão em tudo que fiz, tenho essa consciência. Fizemos projetos dentro do “Fantástico” por nove anos da minha vida, uma grande produtividade com uma barriga no meio! Lembro que eu tinha 88% de produtividade! Trabalhei muito tempo assim. O que acontece é que eu sempre fiz teatro. Então, a televisão muitas vezes não abraça o ator que está fazendo teatro, para poder gravar de segunda a quinta. Às vezes eu penso que eles me veem fazendo teatro e nem me chamam mais, porque tive de declinar.

Miguel Arcanjo Prado – Mas a TV ou a Netflix podem te chamar?
Denise Fraga – Pode chamar. Eu quero fazer TV, não tenho nenhum problema. Não é que eu não faço TV. Eu faço teatro. E faço TV. Eu adoraria fazer TV, series, Netflix, todas essas plataformas. Não tenho restrição nenhuma. É assim, Miguel: no teatro, eu faço aquilo que eu quero dizer. Na televisão, eu quero uma ótima personagem. É isso.

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A Visita da Velha Senhora
Quando: Sexta, 21h, sábado, 17h e 21h, domingo, 18h. 120 min. Até 30/09/2018
Onde: Teatro Sérgio Cardoso (r. Rui Barbosa, 153, Bela Vista, São Paulo, tel. 11 3288-0136)
Quanto: R$ 20 (meia) a R$ 80 (inteira)
Classificação etária: 14 anos

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A atriz Denise Fraga: “Não é que não faço TV, eu faço teatro. E faço TV” – Foto: Bob Sousa – Blog do Arcanjo – UOL

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