Crítica: O Fanstama da Ópera foca em satisfazer público ávido por sua fama

Canto se destaca: Lina Mendes e Thiago Arancam em O Fantasma da Ópera – Foto: Lenise Pinheiro/Folhapress

A impressão que se tem é que o público está mais interessado na fama que, propriamente, na história. A tradição de ser recordista por mais de 30 anos na Broadway e ainda ser o maior público de um espetáculo de teatro musical no Brasil, com 880 mil espectadores por aqui entre 2005 e 2006, impõem certo frenesi antecipado a quem assiste a “O Fantasma da Ópera”.

Não à toa, o público da estreia da nova montagem no Teatro Renault se amontoou na noite desta quarta (1º) frente às portas, tal qual uma debanda nas savanas diante de um obstáculo. Gente ávida por ocupar — após uma breve pausa no saguão para aparecer nas fotos, lives ou degustar o coquetel — as 1.530 poltronas da imponente sala do centro paulistano.

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Essa gente queria ver por primeira vez ou rever sob nova roupagem — além de publicar tudo instantaneamente nas redes sociais, é claro — a romântica história da jovem atriz Christine (Lina Mendes): a mocinha dividida entre o amor do noivo aristocrata e financiador Raoul (Fred Silveira) e o tenebroso e ao mesmo tempo lânguido Fantasma (Thiago Arancam), que assombra a Ópera de Paris na qual ela acaba de tornar-se estrela por imposição do mesmo.

Estreia reúne antigos e atuais protagonistas: veja fotos

Soturno e pomposo: Thiago Arancam é O Fantasma da Ópera – Foto: Pedro Dimitrow – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Orçado em impressionantes R$ 45,3 milhões em tempos de crise econômica, dos quais R$ 28,6 milhões foram autorizados pelo Ministério da Cultura a serem captados via Lei Rouanet — dinheiro cujo centésimo da cifra faria sorrir para sempre qualquer resistente grupo teatral da cidade de São Paulo —, “O Fantasma da Ópera” traz efeitos que buscam justificar seu alto valor.

Para isso, assanha certo frenesi no público, desejoso de ser impactado, como quando o lustre gigante “cai” — na verdade faz mais uma suave descida do que propriamente uma despencada — sobre a plateia, ou fogos pipocam no palco enquanto candelabros gigantes incandescentes se movimentam com graça pelo tablado fortemente esfumaçado.

Entretanto, a grande sustentação do espetáculo, mais do que toda a pirotecnia anos 1980, segue sendo a história simplória e romântica do amor impossível — ou a capacidade de o espectador nela embarcar — entre um Fantasma atordoado e a mocinha suspirante criada por Andrew Lloyd Webber a partir de Gaston Leroux. Para tê-la cada vez mais perto de si, o ser de rosto deformado atormenta tudo ao seu redor, com pequenas e grandes maldades submersas em músicas melódicas e envolventes.

A história começa pelo fim, um prólogo no começo do século 20, com um leilão de peças da já decadente Ópera de Paris, retornando rapidamente décadas no tempo, mostrando o espaço no auge, em 1881, época em que o tal Fantasma atormentou a todos, principalmente a mocinha e seu amado noivo-patrono.

Destaque do elenco, o ator Fred Silveira vive Raoul em O Fantasma da Ópera – Foto: Pedro Dimitrow – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Em bem acertado metateatro (quando o teatro fala de si mesmo, coisa que o público adora, interessado nos bastidores da glamourosa vida artística), durante quase três horas o espetáculo mantém o foco apenas nesta simples trama, completada pelo triângulo formado pelo rico e também apaixonado Raoul. Não há espaço para que os olhos do público se desviem do trio, nem que ninguém mais se sobressaia a não ser eles.

Assim, grande parte da responsabilidade de manter a obra em prumo certo está no desempenho do trio protagonista. E eles dão conta do recado, mesmo com as constantes falhas técnicas de microfone na estreia que precisam ser urgentemente resolvidas ao longo da temporada.

Lina Mendes aposta na candura para criar sua Christine Daaé, trazendo o frescor romântico que a personagem pede, enquanto Thiago Arancam investe no ar soturno e por vezes pomposo para seu Fantasma. Ambos são cantores primorosos, qualidade que sobressai à atuação em ambos os casos. O mais seguro e completo em cena é Fred Silveira, na pele de Raoul, dominando todos os recursos exigidos de um competente ator de musicais: canto, dança e interpretação.

Os protagonistas Thiago Arancam e Lina Mendes em O Fantasma da Ópera – Foto: Pedro Dimitrow – Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Na pele da velha prima dona Carlotta, amarga por ser trocada pela mocinha, Bete Diva também tem seu canto destacado, mas poderia sobressair-se mais na atuação. Sua interessantíssima personagem lhe dá todos os requisitos para roubar a cena. Basta a atriz não temer sair das fortes marcações, se é que isso é possível em um espetáculo técnico como este.

Os figurinos são todos impactantes e, na cena do Carnaval veneziano, com todos emparelhados na gigantesca escadaria, arrancam suspiros e aplausos do público pelo simples fato de existirem e refletirem sob os holofotes. As coreografias, executadas a contento pelo corpo de baile, também preenchem o palco com viço, fazendo reverência ao balé clássico, ultimamente desprezado na maioria dos musicais paulistanos.

Fred Silveira, Thiago Arancam e Lina Mendes na estreia do musical O Fantasma da Ópera no Teatro Renault – Foto: Manuela Scarpa – Brazil News – Blog do Arcanjo – UOL

Blackface incomoda

Uma cena causa desconforto, sobretudo, por seu descompasso histórico com os dias atuais. É aquela no começo do espetáculo que mostra os ensaios na Ópera de Paris quando o Fantasma começa atazanar a todos. A cena traz três atores em blackface, a técnica racista na qual um ator branco se “fantasia” de negro. No espetáculo, os atores brancos usam um tecido marrom escuro que cobre seus braços, pernas e quase todo o rosto, além de perucas black.

Mesmo que tal cena, no enredo, se passe no final do século 19, quando realmente a técnica racista do blackface era comum nos palcos, contudo, diante das recentes discussões sobre representatividade racial nas artes e a também na evidente ausência de atores negros no time de 39 artistas no palco de “O Fantasma da Ópera”, ficam as perguntas: Não teria sido mais salutar ter contratado três atores negros para o coro e que pudessem estes fazer a cena, em vez de reproduzir o blackface em atores brancos, hoje não mais tolerável? É legítimo seguir reproduzindo uma “tradição” racista do século 19 por pura fidelidade histórica em uma obra de ficção sem questioná-la em pleno ano de 2018?

Público ávido por fama

Apesar deste percalço, “O Fantasma da Ópera” serve ao que se propõe: entreter a plateia com uma envolvente história de amor impossível, com alguns arroubos técnicos para encher os olhos. E é também uma superprodução cuja fama já supera seu próprio enredo.

E é tal fama que hoje atrai o público, sedento por sentir-se pertencente a este inquestionável sucesso nos palcos de todo o mundo. Nesta montagem, como em uma grande engrenagem industrial, o resultado do todo é o que importa. E, talvez, o segredo para apreciar a contento este espetáculo seja embarcar sem resistência no romantismo kitsch proposto por ele, sem pensar muito ou questioná-lo. Esta é única a garantia de satisfação.

Crítica por Miguel Arcanjo Prado
“O Fantasma da Ópera”
Avaliação: Bom ✪✪✪
Quando: Qua. a sex., às 21h, sáb.: às 16h e 21h. dom., às 15h e 20h. Estreia em 2/8. Até 23/12/2018
Onde: Teatro Renault, av. Brigadeiro Luís Antônio, 411, Bela Vista, São Paulo
Quanto: R$ 75 a R$ 300
Classificação etária: Livre

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