Fabiana Cozza renuncia papel de Dona Ivone Lara após polêmica racial

A cantora Fabiana Cozza renunciou ao papel de Dona Ivone Lara após polêmica racial na internet – Foto: Stela Handa/Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

A cantora Fabiana Cozza, 42 anos, resolveu renunciar ao papel de Dona Ivone Lara no teatro. Ela estava escalada para protagonizar o musical “Dona Ivone Lara – Um Sorriso Negro”, espetáculo que promete celebrar a trajetória da grande dama do samba que morreu em abril.

A paulistana Fabiana havia sido indicada pela família da própria compositora e cantora carioca para o papel, para o qual foi selecionada pela equipe de produção e direção.

Contudo, diante do anúncio do nome da artista para o posto de protagonista, parte do movimento negro fez barulho na internet, afirmando que Fabiana não seria negra como Dona Ivone Lara, acusando a produção de, ao escalar a cantora, de tentar “clarear” a personagem da vida real.

Influenciadores digitais negros ainda chegaram a afirmar que o musical deveria ser boicotado.

Dona Ivone Lara (1921-2018): matriarca do samba seria interpretada por Fabiana Cozza, que renunciou o papel após polêmica racial nas redes sociais – Foto: Divulgação – Blog do Arcanjo/UOL

Diante da forte pressão nas redes sociais, a cantora, que é filha de um homem negro com uma mulher branca e afirmou ser definida na certidão de nascimento como “parda”, optou por renunciar o papel.

Fabiana é profunda conhecedora da obra de Dona Ivone Lara e uma das grandes vozes femininas do samba da nova geração, sempre tendo sua carreira pontuada pela música de origem negra.

A produção de “Dona Ivone Lara – Um Sorriso Negro” ainda não se manifestou oficialmente sobre o ocorrido.

Nos EUA, aconteceu situação parecida, quando a atriz Zoe Saldana foi duramente criticada nas redes sociais por parte da comunidade negra norte-americana por ter pele mais clara e interpretar Nina Simone, de pele mais escura, no no filme “Nina”.

A produção de Hollywood também foi acusada de racismo por alargar o nariz da atriz com uma prótese e escurecer a pele de Zoe com maquiagem para a personagem.

Zoe respondeu às críticas. “Não existe uma maneira de ser negro. Eu sou negra do jeito que eu sei ser. Ninguém faz ideia do que eu sou. Eu sou negra, estou criando filhos negros. Não pense que pode olhar para mim e me tratar com esse desdém”, falou, sem abrir mão da icônica personagem do jazz.

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Dona Ivone Lara e Fabiana Cozza cantam juntas – Foto: Divulgação

Veja o que Fabiana Cozza publicou neste domingo (3) em sua página oficial no Facebook para explicar o porquê de resolver deixar o papel de Dona Ivone Lara:

“Fabiana Cozza dos Santos, brasileira

Nascimento: 16 de janeiro de 1976

Mãe: Maria Ines Cozza dos Santos, branca

Pai: Oswaldo dos Santos, negro
Cor (na certidão de nascimento): parda

Aos irmãos:

O racismo se agiganta quando transferimos a guerra para dentro do nosso terreiro. Renuncio hoje ao papel de Dona Ivone Lara no musical “Dona Ivone Lara – um sorriso negro” após ouvir muitos gritos de alerta – não os ladridos raivosos. Aprendo diariamente no exercício da arte – e mais recentemente no da academia, sempre com os meus mestres – que escuta é lugar de reconhecimento da existência do Outro, é o espelho de nós.

Renuncio porque falar de racismo no Brasil virou papo de gente “politicamente correta”. E eu sou o avesso. Minha humanidade dói fundo porque muitas me atravessam. Muitos são os que gravam o meu corpo. Todas são as minhas memórias.

Renuncio por ter dormido negra numa terça-feira e numa quarta, após o anúncio do meu nome como protagonista do musical, acordar “branca” aos olhos de tantos irmãos. Renuncio ao sentir no corpo e no coração uma dor jamais vivida antes: a de perder a cor e o meu lugar de existência. Ficar oca por dentro. E virar pensamento por horas.

Renuncio porque vi a “guerra” sendo transferida mais uma vez para dentro do nosso ilê (casa) e senti que a gente poderia ilustrar mais uma vez a página dos jornais quando ‘eles’ transferem a responsabilidade pro lombo dos que tanto chibataram. E seguem o castigo. E racismo vira coisa de nós, pretos. E eles comemoram nossos farrapos na Casa Grande. E bebem, bebem e trepam conosco. As mulatas.

Renuncio em memória a todas negras estupradas durante e após a escravidão pelos donos e colonizadores brancos.

Renuncio porque sou negra. Porque tem sopro suficiente dizendo a hora e o lugar de descer para seguir na luta. É minha escuta de lobo, de quilombola. Renuncio pra seguir perseguindo o sol, de cabeça erguida feito o meu pai, minha mãe (branca), meus avós, meus bisavós, tatas…

Ao lado de vocês, irmãos.

Renuncio porque a cor da pele de Dona Ivone Lara precisa agora, ainda, ser a de outra artista, mais preta do que eu. Renuncio porque quero um dia dançar ao lado de todo e qualquer irmão, toda e qualquer tom de pele comemorando na praça a nossa liberdade.

Renuncio porque respeito a família de Dona Ivone Lara: Eliana, André, seu pai e todos os parentes e amigos que cuidaram dela até os 97 anos e tem sido duramente constrangidos por gente que se diz da luta mas ataca os iguais perversamente. Renuncio pelo espírito de Dona Ivone que ainda faz a sua passagem e precisa de paz.

Renuncio porque quero que este episódio sirva para nos unir em torno de uma mesa, cara a cara, para pensarmos juntos espaços de representatividade para todos nós.

Renuncio porque quero que outras mulheres e homens de pele clara, feito eu, também tenham o direito de serem respeitados como negros.

Renuncio porque tenho alma de artista e levo amor pras pessoas. Porque acredito num mundo feito de gente e afeto.

Renuncio porque não tolero a injustiça, o desrespeito ao outro, o linchamento público e gratuito das pessoas, descabido, vil, sem caráter, desumano.

Renuncio em respeito à direção e produção do espetáculo que tanto me abraçou, em respeito ao elenco que agora se forma e que, sensível a tudo, lutou por seu espaço e precisa trabalhar e criar em silêncio.

Renuncio por amor aos meus amigos artistas, familiares, irmãos que a vida me deu que também se entristecem, mas não se acovardam diante dos covardes.

Renuncio porque sou livre feito um Tiê, porque cantarei hoje, aqui, lá e sempre à senhora, Dama Dourada, minha amiga e amada Dona Ivone Lara.

Renuncio porque, como escreveu meu amado amigo Chico Cesar, “alma não tem cor”. E a gente chega lá.

Fabiana Cozza”

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