Crítica: Ótimo disco de estreia de Raphael Sales, Fundamental impacta MPB

O cantor e compositor Raphael Sales faz estreia potente com o ótimo álbum Fundamental – Foto: La Catrina Fotografia/Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

Por Miguel Arcanjo Prado

A primeira vez que este crítico ouviu e viu o cantor e compositor mineiro Raphael Sales foi em junho de 2017, em São Paulo. Era noite fria, embora o centro cultural Aparelha Luzia estivesse mais quente do que nunca por conta do festival IMuNe (Instante da Música Negra) — do qual o artista tímido era uma das atrações.

Após shows enérgicos e empoderados, uma simplicidade de uma voz acrescida a um violão se instaurou no local, cessando o agito. Num canto, empunhando seu violão, Raphael Sales lançava a música “Os Mininin”. De um jeito doce e, surpreendentemente, potente. Aquela canção ficou lá, guardada, em algum lugar especial da cabeça. Como prenúncio do porvir.

E eis que, quase um ano depois, chega às mãos deste jornalista e colunista, de um modo delicado e elegante, “Fundamental”, primeiro disco do cantor e compositor mineiro de Contagem, cidade vizinha a Belo Horizonte.

Disco este que traz como terceira faixa justamente a inebriante “Os Meninin”. A canção é uma espécie de olhar freudiano para o espelho do passado atordoante, e lindo, do próprio compositor.

Tal serenidade para dizer coisas profundas com sutil poesia liga Raphael Sales a outro grande nome da música mineira e, obviamente, brasileira e internacional: Milton Nascimento. Logo na faixa de abertura, o fluído ijexá “Águas”, fica comprovada sua grandeza como compositor.

O jovem cantor e compositor mineiro Raphael Sales: nova potência da MPB Foto: La Catrina Fotografia/Divulgação – Blog do Arcanjo – UOL

E os que se permitirem uma audição cuidadosa de “Fundamental” comprovarão que as canções deste disco estão intimamente ligadas àquelas do movimento musical mineiro Clube da Esquina. Entre os anos 1960 e 1970, os jovens músicos eram liderado pelo próprio Milton em tempos de uma juventude em busca da paz e do amor em um estado de repleta utopia.

Mesmo estado explorado novamente — e (re)conquistado, de certo modo — pela jovem geração artística-intelectual mineira de Raphael, geração esta a mesma deste também mineiro escriba da cultura.

Tal qual Milton, Raphael dialoga de forma profunda com as raízes mais potentes da música das alterosas: combina, em doses de um alquimista meticuloso, o moderno (obsessão das montanhas sustentadas no barroco) e o ancestral (seja afro ou ameríndio).

Tal qual o Clube da Esquina fez, Raphael Sales funde ritmos intensos e reais, produzindo uma sonoridade homogênea em sua bem dosada heterogeneidade.

O disco se escuta como uma viagem do princípio ao fim, propondo uma experiência estética com diferentes qualidades sonoras, fruto, obviamente, de uma intensa pesquisa musical.

Raphael Sales se revela como um artista que tem um olhar sobre a totalidade de sua obra, orquestrando diferentes materiais sem necessariamente estar em primeiro plano.

Como quando oferece os vocais em “Cerca de La Paz” (composição com Larissa Alberti) para a chilena Claudia Manzo cantar em irrepreensível castelhano, diferentemente do portunhol preguiçoso que soa em faixas de muitos jovens compositores da nova MPB.

Larissa Alberti também compôs com Raphael Sales “Terra”, uma imersão indígena xamânica assumida por Deh Mussulini e Luana Aires, embalada pelo coro de Raphael.

Os elementos da natureza evocados pelo disco produzido por Rafel Dutra e masterizado por Ygor Rajão garantem ao álbum de Raphael Sales o título de um dos discos mais interessantes surgidos da música brasileira recente – que anda, por sinal, repleta de boas descobertas aos ouvidos menos óbvios.

Como pílula derradeira, como uma espécie de respiro utópico repleto de uma escolha de entendimento de mundo, Raphael Sales encerra o álbum cantando “Falta Nada Não”. Não, mesmo.

Crítica por Miguel Arcanjo Prado
Disco: “Fundamental”
✪✪✪✪✪
Artista: Raphael Sales
Avaliação: Ótimo

PS. É importante ressaltar que o disco “Fundamental” de Raphael Sales traz sonoridade muitas vezes transcendental fruto do trabalho da harmônica banda formada por Antônio Beirão (baixo); Alexandre Andrés (flauta); Felipe José (violoncelo); Leandro César (marimba); Marcelo Luiz Barbosa (contrabaixo); Di Souza, Rafa Nunes, PG Rocha, Bruno Cunha Lima e Edson Fernando (percussões); Claudia Manzo, Deh Mussulini, Laís Lacorte e Luana Aires (vozes e coros).

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