Crítica | Satyros comove Festival de Curitiba com Aurora, drama de outsiders do centro de São Paulo

Satyros comove 30º Festival de Curitiba com o drama Aurora – Foto: Lina Sumizono – Blog do Arcanjo

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo
Enviado especial ao Festival de Curitiba*

A Cia. de Teatro Os Satyros tem 33 anos de trajetória, dos quais mais de duas décadas localizada no centro da cidade de São Paulo, mais especificamente na Praça Roosevelt, da qual o grupo é o próprio epicentro.

É desse lugar, tão movimentado e ao mesmo tempo tão solitário, que emergem os controversos personagens de Aurora, espetáculo escrito por Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, e dirigido por este último, que o grupo apresentou nesta quinta (7) e sexta (8) no 30º Festival de Curitiba, com sessões lotadas no Teatro José Maria Santos.

Na obra, o Satyros coloca o dedo na ferida de traumas profundos pessoais e sociais sem direito a piedade ou medo de polêmica. Assuntos espinhosos como pedofilia, estupro, perversão e assassinato estão presentes na dramaturgia.

Nicole Puzzi, Marcia Dailyn e Julia Bobrow: Satyros comove 30º Festival de Curitiba com o drama Aurora – Foto: Lina Sumizono – Blog do Arcanjo

O teatro visceral do Satyros mais uma vez escancara para o público o lado B da vida. E, obviamente, não se trata de um teatro facilmente palatável, mas que incomoda e faz refletir, ao expor as mazelas humanas tendo como único filtro a da poética cênica.

A peça traz elenco coeso em sua diversidade. Ivam Cabral e Eduardo Chagas criam personagens soturnos e praticamente vindos do além, com uma espécie de olhar desiludido para o que se estabeleceu.

Nicole Puzzi, por sua vez, tem entrega desmedida à sua sofrida personagem e faz da confissão de suas agruras seu grande momento cênico. A atriz é uma estrela dramática de primeiro porte.

Julia Bobrow imprime ritmo e vivacidade à sua cínica influenciadora digital, tornando-se ponto de fuga de tanto peso ao redor. O mesmo se dá com Marcia Dailyn, que imprime humor à sua vizinha com pendores assassinos. Nada melhor do que uma vilã bem humorada para aliviar um pouco as coisas.

De volta ao drama, Henrique de Mello assume com coragem a tristeza que seu personagem expõe com sua “perversão”. O mesmo se dá com Gustavo Ferreira, que dá vida a um dos personagens mais complexos e densos de sua carreira. Por fim, a aparição relâmpago ao final de Diego Ribeiro é feita com entrega e talento pelo mesmo.

Tal time do Satyros dirigido por um incansável Rodolfo García Vázquez comoveu o público curitibano com seu teatro que é a cara da maior metrópole do país, mas que também tão próximo a Curitiba.

Ivam Cabral: Satyros comove 30º Festival de Curitiba com o drama Aurora – Foto: Lina Sumizono – Blog do Arcanjo

Além das atuações e do texto, o espetáculo também tem como ponto forte design de aparência de Adriana Vaz, que vem se destacando cada vez mais nas obras do grupo com um trabalho sofisticado e no qual conta com assistência de Letícia Gomide. Perucas e figurinos trabalhados ajudam a engrandecer o espetáculo.

A iluminação assinada pelo diretor com Flávio Duarte também contribui com a costura de sentimentos densos que a obra propõe em seu tempo/espaço. Este crítico talvez sugerisse, de um lugar carinhoso, uma leve edição na duração do espetáculo, o que provavelmente potencializaria as histórias contadas, sobretudo diante do público cada vez mais veloz e fortemente digatalizado no pós-quarentena. E o Satyros sempre foi pioneiro neste sentido de entender os novos tempos. Cada vez mais, menos é mais.

Gustavo Ferreira em um dos papíes mais densos de sua carreira: Satyros comove 30º Festival de Curitiba com o drama Aurora – Foto: Lina Sumizono – Blog do Arcanjo

Em Aurora, o Satyros navega no que faz de melhor: expor as agruras da metrópole que o inspira. E, mesmo diante de terreno já conhecido, oferece novo enfoque poético aos moradores paulistanos, criando uma espécie de realismo fantástico fantasmagórico destes seres altamente incompreendidos.

Aurora

da Cia Os Satyros

Avaliação: Muito Bom ✪✪✪✪
Crítica por Miguel Arcanjo Prado

*O jornalista e crítico Miguel Arcanjo Prado viajou a convite do Festival de Curitiba.

+ Blog do Arcanjo no Festival de Curitiba!

Veja Aurora, do Satyros, no 30º Festival de Curitiba, pelo olhar da fotógrafa Lina Sumizono para o Blog do Arcanjo

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O jornalista e crítico Miguel Arcanjo Prado é mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação Social pela UFMG e crítico da APCA, da qual foi vice-presidente. Dirige o Blog do Arcanjo e o Prêmio Arcanjo. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e faz o Podcast do Arcanjo. Está entre os melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se e Prêmio Governador do Estado de São Paulo. Passou por Globo, Record, R7, Record News, Folha, Abril, Contigo, Superinteressante, Band, Gazeta, UOL, Uma, Rede TV!, TV UFMG e O Pasquim 21. É jurado das premiações Prêmio Arcanjo de Cultura, Melhores do Ano Blog do Arcanjo, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio Destaque Digital, Melhores do Ano Guia da Folha e Prêmio Canal Brasil de Curtas. É vencedor dos Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação Nacional ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã e Prêmio África Brasil. Foto: Edson Lopes Jr.
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