Crítica | Pessoas Brutas emociona ao extrair poesia da crueza da metrópole

Julia Bobrow e Eduardo Chagas: grande momento da carreira em Pessoas Brutas, peça do Satyros – Foto: Andre Stefano – Blog do Arcanjo

Por MIGUEL ARCANJO PRADO
@miguel.arcanjo

A cidade de São Paulo, sobretudo seu centro com moradores repletos de idiossincrasias, é o âmago das peças da Cia. de Teatro Os Satyros. Mais uma vez, em Pessoas Brutas, que integra a Trilogia das Pessoas, os conflitos dos habitantes da maior metrópole do Brasil estão em foco.

Mesmo vivendo em um verdadeiro formigueiro humano, a solidão é o que impera. Ou, como diz o desolado personagem defendido com sofisticação por Henrique Mello, ninguém é capaz de sair de seu monólogo para ouvir verdadeiramente o outro por cinco minutos que seja, frase que é a síntese da peça.

O texto sensível de Ivam Cabral e Rodolfo García Vázquez, que dirige a obra, apresenta uma elite de pessoas soturnas que usurpam o bem público em benefício próprio. Tal ostentação, desperta a inveja ao redor, sobretudo por ocorrer terra miserável e desigual.

A atriz Dani Moreno: destaque na peça Pessoas Brutas da Cia de Teatro Os Satyros – Foto: Andre Stefano – Blog do Arcanjo

Uma profusão de atores está em cena. Para ser mais preciso, 13 artistas que formam um conjunto coeso, apesar dos diferentes matizes de atuações, algo típico da companhia.

Essa polifonia acaba refletindo a própria diversidade da Praça Roosevelt, onde o Satyros está sediado há mais de duas décadas e que é a síntese da cidade.

A dupla que comove com uma química sensível é formada por Julia Bobrow e Eduardo Chagas, na pele de pai e filha. Ele, um descendente de imigrantes que tentou construir a vida no novo mundo para dar aos filhos o que não teve. Ela, a garota deslocada socialmente e embrutecida pela desolação de não ser aquilo que seu pai desejou que fosse.

A cena mais visceral da obra é quando o pai, um velho taxista, chega do trânsito infernal paulistano e pede para a filha cantar I Have a Dream, do Abba. É de encher os olhos de lágrimas até do mais bruto espectador. Chagas e Bobrow constroem uma das mais tocantes cenas já apresentadas numa peça do Satyros.

Outro destaque no elenco é Henrique Mello, que conduz o trio viciado de uma forma elegante e com atuação tão lúcida que torna sua presença um desafio de reflexões profundas para o espectador. Dani Moreno acompanha a sutileza do colega de cena com contribuições interessantes e calientes, enquanto que André Lu demonstra a abertura de quem tem consciência de estar em aprendizado, mas ainda em uma oitava acima dos colegas de cena.

Alex de Jesus dá vida ao ex-presidiário e garoto de programa Sueco em Pessoas Brutas, peça do Satyros – Foto: Andre Stefano – Blog do Arcanjo

Alex de Jesus, que começou no Satyros Teens assim como André Lu, surge mais maduro no papel do ex-presidiário que flerta com a figura do garoto de programa. Ele constrói uma parceria à la ‘Bonnie e Clayde da quebrada’ com Disneylândia, a já icônica personagem de Julia Bobrow, que carrega um dos melhores nomes da dramaturgia recente nacional.

Na pele de um sapateiro com enternecedor sotaque mineiro, o sempre cativante Thiago Mendonça imprime em seu Teodoro uma candura dúbia, que carrega o peso de uma vaidade travestida de heroísmo.

Por fim, é preciso ressaltar a direção de arte formada pelo encontro dos figurinos de Bia Pieratti e Carol Reissman — com orientação de Adriana Vaz e Thiago Mendonça nesta remontagem da obra original de 2017 — com as perucas Lenin Cattai e o visagismo em preto e branco do elenco.

Pessoas Brutas da Cia de Teatro Os Satyros: moradores solitários da metrópole em xeque – Foto: Andre Stefano – Blog do Arcanjo

Também ressalta a cru atmosfera da montagem a iluminação precisa de Rodolfo García Vázquez e Flávio Duarte, verdadeiro maestro cenotécnico do grupo.

Ainda estão no dedicado elenco Gustavo Ferreira, na pele de um violento marido que guarda segredos inconfessáveis e que oprime em altos decibéis sua mulher, interpretada pela delicada Gabriela Veiga —um casal cujo discurso não condiz com a prática, algo típico da positividade tóxica que reina no vizinho bairro da Santa Cecília.

Sabrina Denobile, na pele de uma virgem temporã, e Tiago Leal, como um contador feliz em sua mediocridade, vivem um desejo impossível, enquanto que Diego Ribeiro surge irreconhecível como o traficante Berilo, construído pelo ator com fortes traços.

Apesar do elenco numeroso, o espetáculo ganharia mais ritmo com uma leve edição.

Pessoas Brutas no fundo é mais uma homenagem do Satyros a São Paulo, esta cidade tão dura e difícil e da qual o grupo é a melhor síntese cênica. A metrópole onde a desesperança mora em cada esquina, por onde rumam jogadores de um game em busca de sucesso no qual não há espaço para todos no pódio.

Pessoas Brutas

Avaliação: Muito Bom ✪✪✪✪
Crítica por Miguel Arcanjo Prado

Quando: Quinta, 20h, sexta, 20h e 23h, e sábado, 21h. 120 min.
Onde: Espaço dos Satyros – Praça Roovelt, 214, metrô República ou Higienópolis-Mackenzie, São Paulo
Quanto: Grátis

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Um dos mais influentes e respeitados jornalistas e críticos culturais do Brasil, Miguel Arcanjo Prado dirige o Blog do Arcanjo e o Prêmio Arcanjo. É mestre em Artes pela UNESP, pós-graduado em Mídia e Cultura pela ECA-USP, bacharel em Comunicação Social pela UFMG e crítico da APCA – Associação Paulista de Críticos de Artes, da qual foi vice-presidente. Coordena a Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e faz o Podcast do Arcanjo. Foi eleito entre os melhores jornalistas de Cultura do Brasil pelo Prêmio Comunique-se e Prêmio Governador do Estado de São Paulo. Passou por Globo, Record, R7, Record News, Folha, Abril, Contigo, Superinteressante, Band, Gazeta, UOL, Uma, Rede TV!, TV UFMG e O Pasquim 21. É jurado das premiações Prêmio Arcanjo, Sesc Melhores Filmes, Prêmio Bibi Ferreira, Prêmio Destaque Digital, Melhores do Ano Guia da Folha, Prêmios ANCEC e Prêmio Canal Brasil de Curtas. É vencedor do Troféu Nelson Rodrigues, Prêmio Destaque em Comunicação Nacional ANCEC, Troféu Inspiração do Amanhã e Prêmio África Brasil.
Foto: Edson Lopes Jr.
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